A grave crise de combustíveis que afecta várias cidades de Moçambique poderá estar directamente ligada a uma polémica decisão financeira do Governo envolvendo o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Segundo uma investigação publicada pelo semanário Evidências, o Executivo moçambicano terá efectuado, em Março de 2026, um pagamento antecipado de cerca de 700 milhões de dólares ao FMI, operação que terá provocado forte pressão sobre as Reservas Internacionais Líquidas do Banco de Moçambique.
De acordo com a publicação, o impacto da medida acabou por gerar uma severa escassez de divisas no sistema financeiro nacional, afectando directamente a importação de combustíveis e outros bens essenciais.
Actualmente, os bancos comerciais moçambicanos enfrentam dificuldades para emitir garantias bancárias internacionais, conhecidas como cartas de crédito, exigidas pelos fornecedores estrangeiros para descarregar combustíveis nos portos nacionais.
Sem essas garantias financeiras, multinacionais fornecedoras como a Vitol estariam a atrasar ou reter navios de combustível destinados ao país.
O relatório do Evidências aponta ainda que o volume de pagamentos pendentes no sistema bancário moçambicano já varia entre 1 e 1,1 bilião de dólares.
Enquanto o Governo justificou o pagamento antecipado ao FMI como uma medida para proteger a estabilidade macroeconómica e fortalecer a credibilidade internacional do país, economistas e fontes do sector petrolífero classificam a operação como uma decisão financeiramente arriscada.
Especialistas citados pelo jornal defendem que os 700 milhões de dólares poderiam ter sido usados para injectar liquidez no mercado cambial, estabilizar importações estratégicas e reduzir a pressão sobre os combustíveis, medicamentos e matérias-primas.
Nas últimas semanas, o país registou longas filas nas bombas de abastecimento, paralisação parcial de transportes e dificuldades logísticas em vários sectores económicos.
Ao longo da Estrada Nacional Número Um (N1), vários camiões de mercadorias permanecem imobilizados por falta de combustível, situação que começa a ameaçar o abastecimento do Centro e Norte do país.
Até ao momento, nem o Ministério das Finanças nem o Banco de Moçambique apresentaram esclarecimentos públicos detalhados sobre os critérios económicos que sustentaram a operação financeira. (Vozafricano)