Durante anos, Moçambique gastou milhões a importar hortícolas da África do Sul. Agora, o Governo quer transformar Gaza num novo centro agrícola capaz de abastecer o mercado nacional e reduzir a dependência externa.
A estratégia agrícola de Moçambique entra numa nova fase com uma aposta ambiciosa: substituir gradualmente as importações de produtos como batata, tomate, couve e cebola provenientes da África do Sul pela produção nacional na província de Gaza.
A decisão coloca Gaza no centro de uma batalha económica contra a dependência alimentar externa, num momento em que o país procura fortalecer a produção interna, criar emprego no campo e reduzir a saída de divisas para mercados estrangeiros.
Durante uma visita de trabalho à província, o ministro da Agricultura, Roberto Albino, lançou um apelo aos produtores, empresas agrícolas e fornecedores de sementes para aumentarem a capacidade produtiva e transformarem Gaza numa das principais zonas de abastecimento alimentar de Moçambique.
“Queremos assumir um compromisso com todos os intervenientes para avançarmos vigorosamente no sentido de substituir totalmente as importações de batata, tomate, couve e cebola”, afirmou o governante, citado pela Agência de Informação de Moçambique.
A aposta que pode mudar o mapa agrícola nacional
A província de Gaza possui uma das maiores áreas agrícolas do sul de Moçambique, beneficiando de zonas com potencial para irrigação e produção em grande escala.
O Governo acredita que, com investimento em sementes, sistemas de rega, recuperação de infra-estruturas e apoio técnico aos agricultores, a região pode deixar de ser apenas uma produtora local e passar a competir directamente com fornecedores externos.
A aposta surge numa altura em que grande parte dos produtos hortícolas consumidos no sul do país ainda depende da África do Sul, criando uma forte exposição às variações de preços internacionais, custos de transporte e oscilações cambiais.
Massingir Valley Farms mostra recuperação após cheias
Um dos pontos analisados durante a visita foi a Massingir Valley Farms, uma unidade agrícola que conseguiu recuperar parte da sua capacidade produtiva depois dos prejuízos causados pelas cheias.
Segundo Roberto Albino, a empresa retomou a produção em cerca de dois mil hectares, demonstrando capacidade de recuperação mesmo depois dos impactos climáticos.
O ministro defendeu que a reconstrução das infra-estruturas agrícolas deve ser feita com uma visão de longo prazo, criando sistemas preparados para resistir a futuros eventos extremos.
A mensagem do Governo é clara: aumentar a produção não basta; é necessário construir uma agricultura mais resistente às mudanças climáticas.
Guijá pode tornar-se centro nacional de sementes
No distrito de Guijá, o Executivo identificou outro potencial estratégico: a produção de sementes.
Após avaliar campos de produção de feijão, o ministro considerou que o distrito possui condições para se tornar uma referência nacional na produção de sementes de milho e feijão.
Esta aposta é considerada fundamental porque a disponibilidade de sementes de qualidade continua a ser um dos principais desafios enfrentados pelos agricultores moçambicanos.
Sem sementes adequadas, mesmo com terra disponível, a produtividade agrícola permanece limitada.
O grande desafio: sair dos anúncios e chegar ao mercado
Apesar do potencial, especialistas do sector agrícola defendem que a substituição das importações dependerá da capacidade de resolver problemas antigos, como acesso ao financiamento, transporte, armazenamento, mercado garantido e continuidade dos programas de apoio aos produtores.
A experiência mostra que aumentar a produção no campo é apenas uma parte da solução. O verdadeiro desafio está em garantir que os agricultores consigam colocar os produtos no mercado a preços competitivos.
Gaza pode ser a resposta para a dependência alimentar?
A iniciativa representa uma das maiores apostas recentes para fortalecer a agricultura no sul de Moçambique.
Se os investimentos forem acompanhados por infra-estruturas adequadas e apoio consistente aos produtores, Gaza poderá assumir um novo papel económico: passar de uma província com potencial agrícola para uma plataforma nacional de produção capaz de reduzir a dependência da África do Sul.
A promessa é grande, mas o resultado dependerá da execução no terreno — onde se decidirá se Moçambique continuará a importar aquilo que tem condições para produzir.
Fonte: Agência de Informação de Moçambique (AIM) / Ministério da Agricultura de Moçambique
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