O Fundo Soberano de Moçambique registou um crescimento superior a 7,5% nos primeiros sete meses de gestão do Banco de Moçambique (BdM), ultrapassando os 118 milhões de dólares e consolidando-se como um dos principais instrumentos financeiros criados para proteger o futuro económico do país. Embora os números revelem uma evolução positiva, especialistas alertam que o verdadeiro desafio começa agora: transformar a riqueza do gás natural em desenvolvimento sustentável, evitando que Moçambique repita erros cometidos por outros países ricos em recursos naturais.
Os dados mais recentes do Banco de Moçambique indicam que o Fundo Soberano atingiu um valor de mercado de 118,3 milhões de dólares, resultado da combinação entre novas transferências do Estado e os primeiros rendimentos obtidos através da aplicação dos recursos nos mercados financeiros internacionais.
O crescimento acontece numa fase considerada decisiva para a consolidação daquele que poderá tornar-se o maior instrumento público de poupança e estabilização financeira da história do país.
Como nasceu o Fundo Soberano?
A criação do Fundo Soberano foi aprovada pela Assembleia da República em Dezembro de 2023, depois de vários anos de debate sobre a melhor forma de administrar as futuras receitas provenientes da exploração de gás natural na Bacia do Rovuma.
A legislação estabelece que 40% das receitas anuais do gás deverão alimentar o Fundo, enquanto a parcela restante será canalizada para financiar o Orçamento do Estado, especialmente durante os primeiros anos de funcionamento.
A capitalização efectiva começou apenas em 10 de Dezembro de 2025, quando o Governo transferiu os primeiros 109,9 milhões de dólares para o Banco de Moçambique, entidade responsável pela gestão operacional do mecanismo.
Poucas semanas depois, uma nova transferência reforçou o capital inicial, permitindo que o património do Fundo ultrapassasse rapidamente os 118 milhões de dólares.
Porque este crescimento é importante?
Embora o aumento de pouco mais de 7,5% possa parecer modesto, economistas sublinham que o principal objectivo do Fundo não é obter lucros rápidos.
Pelo contrário, a prioridade consiste em preservar o capital, investir com baixo risco e garantir estabilidade financeira ao Estado ao longo das próximas décadas.
Os recursos estão a ser aplicados em activos financeiros internacionais diversificados, seguindo critérios semelhantes aos utilizados por alguns dos maiores fundos soberanos do mundo.
Esta estratégia pretende reduzir riscos e evitar que a economia moçambicana fique excessivamente dependente das oscilações do mercado energético.
O que muda para Moçambique?
Caso o Fundo continue a crescer ao ritmo esperado, poderá desempenhar um papel determinante na estabilidade económica nacional.
Entre os principais benefícios apontados por especialistas destacam-se:
- maior capacidade para enfrentar crises económicas internacionais;
- criação de reservas financeiras para futuras gerações;
- redução da dependência do endividamento externo;
- maior confiança dos investidores internacionais;
- reforço das contas públicas em períodos de queda das receitas do gás.
Segundo projecções oficiais, as receitas anuais provenientes do gás natural poderão ultrapassar 6 mil milhões de dólares por ano durante a década de 2040.
Se estas previsões se confirmarem, o Fundo Soberano poderá tornar-se um dos maiores activos financeiros públicos da África Austral.
Banco de Moçambique assume responsabilidade estratégica
Enquanto gestor operacional do Fundo, o Banco de Moçambique é responsável por aplicar os recursos financeiros de acordo com uma política de investimento previamente definida pelo Governo.
A instituição explica que os investimentos privilegiam mercados internacionais considerados seguros, procurando equilibrar rentabilidade, liquidez e controlo do risco.
Além disso, a gestão está sujeita a auditorias internas e externas, numa tentativa de assegurar elevados níveis de transparência.
O Fundo continua, contudo, a pertencer integralmente ao Estado moçambicano.
FMI acompanha evolução do Fundo
O Fundo Monetário Internacional (FMI) considera que a criação do Fundo Soberano representa um passo importante para a gestão das futuras receitas dos recursos naturais.
Apesar disso, a organização internacional recomendou recentemente que Moçambique continue a reforçar os mecanismos de governação, fiscalização e prestação de contas.
Segundo o FMI, fundos soberanos mal administrados podem transformar-se em fontes de instabilidade económica e financeira, enquanto modelos transparentes conseguem proteger as economias durante períodos de crise.
O maior desafio ainda está por chegar
Especialistas alertam que o sucesso do Fundo Soberano não dependerá apenas do crescimento do seu património.
O verdadeiro teste será a capacidade das instituições nacionais em resistir a pressões políticas, garantir disciplina financeira e impedir que os recursos sejam utilizados para despesas de curto prazo.
A história internacional demonstra que vários países ricos em petróleo, gás e minerais desperdiçaram receitas extraordinárias sem criar riqueza duradoura.
Moçambique procura agora seguir um caminho diferente, utilizando os recursos do gás como instrumento para fortalecer a economia, estabilizar as finanças públicas e criar uma reserva capaz de beneficiar também as próximas gerações.
Se essa estratégia for mantida, o Fundo Soberano poderá tornar-se uma das peças mais importantes da arquitectura económica moçambicana nas próximas décadas. (por : paula nhampossa )
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