A Câmara de Minas alerta que a riqueza mineral do país pode continuar sem gerar benefícios reais se Moçambique não investir em educação, transparência e participação das comunidades. Especialistas defendem que o futuro dos recursos naturais depende menos da quantidade de minérios existentes e mais da capacidade de transformá-los em desenvolvimento.
Moçambique possui uma das maiores reservas de recursos naturais da região, incluindo carvão, grafite, gás natural, areias pesadas e diversos minerais estratégicos. Mas, segundo a Câmara de Minas de Moçambique, a existência dessas riquezas, por si só, não garante crescimento económico nem melhoria das condições de vida da população.
A organização defende que o país precisa de uma mudança profunda na forma como olha para os seus recursos naturais, começando pelo fortalecimento da consciência social, educação e participação colectiva sobre o destino das riquezas existentes.
A posição foi apresentada por Rui Catoma, representante da Câmara de Minas de Moçambique, durante o painel “Recursos Naturais: Resiliência e Bancabilidade – Digitalizar para Proteger e Produzir”, realizado no âmbito do BFSI Mozambique 2026.
“Só ter recursos não traz benefícios”, alerta Câmara de Minas
Segundo Rui Catoma, um dos maiores desafios de Moçambique não está apenas em descobrir ou explorar novos recursos, mas em definir claramente como esses recursos devem beneficiar o país.
“Quanto mais consciência social tivermos, não só como indivíduos, mas como grupo, levantando a nossa identidade como moçambicanos, mais começaremos a responder a nós mesmos o que é que queremos fazer com os recursos que temos”, afirmou.
O responsável destacou que muitos países ricos em recursos naturais continuam a enfrentar dificuldades económicas porque não conseguem transformar a riqueza subterrânea em desenvolvimento sustentável.
Para a Câmara de Minas, o debate deve deixar de estar concentrado apenas na quantidade de minerais existentes e passar para uma questão mais estratégica: como transformar esses recursos em emprego, indústria, conhecimento e oportunidades para os cidadãos.
Comunidades desconhecem valor dos recursos existentes
Um dos pontos levantados pela organização está relacionado com o baixo conhecimento das comunidades onde existem depósitos minerais.
Segundo Catoma, muitas populações vivem próximas de zonas com elevado potencial económico, mas desconhecem o valor dos recursos existentes, os processos de exploração e os possíveis benefícios que podem resultar da actividade mineira.
“Quando vamos a um depósito em que há ocorrências de minérios, temos lá uma população que não tem consciência do que significa aquele minério, quais são as vantagens que pode ter, como pode processar, para que deve processar e qual é o benefício que pode ter”, explicou.
Para inverter esta realidade, a Câmara de Minas defende maior investimento em programas de educação, divulgação de informação e colaboração entre Governo, empresas e comunidades.
Transparência é apontada como chave para confiança
No sector extractivo, a transparência continua a ser apresentada como um dos principais instrumentos para garantir confiança entre o Estado, empresas e comunidades.
Rui Catoma lembrou que Moçambique integra a Iniciativa para a Transparência nas Indústrias Extractivas (ITIE), mecanismo internacional que promove maior abertura sobre receitas, contratos, exploração de recursos e distribuição dos benefícios.
Segundo o representante, a transparência ajuda a reduzir conflitos e permite que a sociedade compreenda melhor como os recursos naturais são explorados e quais ganhos chegam efectivamente ao país.
Digitalização e inteligência artificial podem acelerar sector
Apesar de defender o uso das novas tecnologias, a Câmara de Minas alerta que a digitalização não deve ser vista como uma solução automática para todos os problemas.
“Se não fizermos isso, não é a digitalização que vai ajudar-nos a resolver os problemas”, afirmou Rui Catoma.
Segundo o responsável, ferramentas como inteligência artificial e sistemas digitais podem melhorar significativamente o sector extractivo através de:
- identificação de depósitos minerais;
- melhoria da logística;
- análise de mercados;
- definição de preços;
- redução de riscos ambientais;
- monitoria e conservação dos recursos.
No entanto, essas tecnologias precisam estar associadas a pessoas qualificadas e a uma estratégia nacional clara.
O desafio é transformar recursos em desenvolvimento
A Câmara de Minas defende que o aproveitamento dos recursos naturais exige uma responsabilidade partilhada entre:
- Governo;
- empresas privadas;
- comunidades;
- instituições de ensino;
- sociedade civil.
A organização considera que Moçambique precisa preparar melhor os seus cidadãos para responder às exigências do mercado internacional e garantir maior participação nacional na cadeia de valor dos projectos extractivos.
A riqueza está no subsolo, mas o desenvolvimento depende das escolhas
Com grandes investimentos previstos nos sectores de mineração e energia, Moçambique encontra-se perante uma oportunidade considerada histórica.
Mas o desafio central permanece: evitar que os recursos naturais sejam apenas exportados como matéria-prima e garantir que gerem conhecimento, empresas nacionais fortes, empregos qualificados e melhoria das condições de vida.
A mensagem deixada pela Câmara de Minas é clara: o futuro dos recursos naturais de Moçambique não será definido apenas pelo que existe debaixo da terra, mas pela capacidade do país em transformar essa riqueza em valor para a população.
Fonte: Câmara de Minas de Moçambique / BFSI Mozambique 2026