O país enfrenta um paradoxo: navios descarregam combustível nos portos nacionais, mas postos continuam sem gasolina e gasóleo. A verdadeira crise pode não estar na falta de produto, mas sim no sistema financeiro que impede a sua libertação.
Durante anos, sempre que surgiram problemas de abastecimento de combustíveis em Moçambique, a explicação mais comum apontava para uma suposta falta de produto no mercado internacional. No entanto, uma análise mais profunda revela uma realidade diferente: o combustível muitas vezes existe, chega ao país, mas fica bloqueado por dificuldades financeiras.
O problema está numa cadeia invisível que liga fornecedores internacionais, bancos, importadores e o mercado cambial. Quando um dos elementos falha, milhares de toneladas de combustível podem permanecer armazenadas nos terminais nacionais sem chegar aos consumidores.
A recente análise da Fundação para a Competitividade Empresarial (FUNDEC) conclui que as principais causas das rupturas registadas entre 2019 e Maio de 2026 estão relacionadas com três factores centrais: escassez de divisas, dificuldades na obtenção de garantias bancárias e limitações do mercado cambial nacional.
O combustível chega ao porto, mas não chega ao posto
A situação parece contraditória: um navio descarrega combustível nos terminais da Matola, Beira, Nacala ou Pemba, mas dias depois consumidores enfrentam filas e falta de abastecimento.
A explicação está no processo financeiro.
Antes mesmo de um navio chegar a Moçambique, as empresas distribuidoras precisam garantir ao fornecedor internacional que terão capacidade de efectuar o pagamento.
Quando essa garantia não existe, a carga pode entrar numa situação conhecida no sector internacional como “financial hold”, ou seja, uma retenção financeira.
Neste cenário, o combustível está fisicamente no país, mas o importador não pode levantá-lo nem distribuí-lo até resolver as exigências financeiras.
A batalha pelos dólares começa antes da bomba secar
A importação de combustíveis é realizada em dólares, uma moeda que representa uma das maiores pressões para a economia moçambicana.
Embora Moçambique exporte recursos como gás, carvão, alumínio e energia eléctrica, o acesso efectivo às receitas em moeda estrangeira continua a ser um desafio.
Segundo a análise da FUNDEC, parte dessas receitas não circula directamente pelo sistema bancário nacional devido a factores como:
- pagamento da dívida externa;
- repatriamento de lucros;
- estruturas financeiras dos grandes projectos económicos.
Como consequência, os bancos nacionais enfrentam limitações para disponibilizar dólares suficientes para operações estratégicas como a compra de combustíveis.
O papel dos bancos: sem garantia, não há combustível
O fornecedor internacional não entrega combustível apenas com base na promessa do importador.
É necessário um mecanismo de segurança financeira.
Normalmente, o processo envolve:
- garantia bancária;
- carta de crédito;
- pagamento antecipado.
Os bancos comerciais moçambicanos muitas vezes precisam do apoio de bancos correspondentes internacionais, instituições financeiras estrangeiras que confirmam a garantia de pagamento.
Quando esse circuito falha, o fornecedor mantém a carga bloqueada.
Ou seja, a crise deixa de ser logística e passa a ser financeira.
Pequenas empresas enfrentam maior pressão
Um dos pontos críticos do mercado está na capacidade financeira dos diferentes operadores.
Para obter garantias bancárias de dezenas de milhões de dólares, as empresas precisam apresentar activos que funcionem como segurança para os bancos.
Essas garantias podem incluir:
- depósitos;
- imóveis;
- instalações industriais;
- outros activos financeiros.
Empresas com maior capacidade patrimonial conseguem ultrapassar períodos de tensão cambial com mais facilidade.
Já operadores menores podem enfrentar dificuldades para financiar novas importações, reduzindo a concorrência no mercado.
Quem controla a cadeia de combustíveis em Moçambique?
O mercado nacional conta com várias empresas autorizadas a importar combustíveis, incluindo:
- Petromoc;
- Puma Energy;
- Galp;
- TotalEnergies;
- Vivo Energy;
- I2A;
- Union Energy.
No entanto, a rede de postos funciona através de diferentes modelos comerciais.
Muitos postos que exibem marcas internacionais pertencem, na realidade, a empresários privados que operam através de contratos de exploração semelhantes a franquias.
Isso significa que a cadeia envolve vários níveis: importação, distribuição, armazenamento e venda ao consumidor final.
Uma crise que revela fragilidades económicas profundas
Para além da falta momentânea de combustível, a situação expõe um problema estrutural da economia moçambicana: a fragilidade do mercado cambial.
A FUNDEC aponta que as dificuldades aumentaram após a crise das dívidas ocultas, em 2016, período que afectou a confiança dos investidores internacionais e reduziu o acesso a determinados fluxos financeiros externos.
Com menos disponibilidade de moeda estrangeira, aumentaram as dificuldades para financiar importações essenciais.
E os combustíveis estão entre os produtos mais sensíveis, porque qualquer interrupção afecta directamente:
- transporte público;
- agricultura;
- indústria;
- comércio;
- preços dos produtos básicos.
A verdadeira factura dos combustíveis
A crise dos combustíveis em Moçambique mostra que garantir energia para o país não depende apenas de comprar petróleo no exterior.
Depende também de um sistema financeiro capaz de movimentar dólares, emitir garantias e permitir que o produto chegue rapidamente ao consumidor.
O maior desafio agora é fortalecer essa cadeia financeira para evitar que o país volte a enfrentar uma situação em que há combustível nos tanques, mas falta combustível nas bombas.
Fonte: Fundação para a Competitividade Empresarial (FUNDEC) / Análise sobre Mercado de Combustíveis em Moçambique