A expansão da rede de gás natural nos distritos de Vilankulo, Inhassoro e Govuro promete mudar o consumo energético de milhares de famílias, reduzir a dependência da lenha e carvão vegetal e abrir novas oportunidades para negócios locais.
A província de Inhambane prepara uma nova fase na expansão do acesso ao gás natural, com a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) a avançar com um projecto que deverá ligar mais 2 mil famílias à rede de distribuição nos distritos de Vilankulo, Inhassoro e Govuro até 2027.
A iniciativa surge num momento em que Moçambique procura transformar os seus recursos energéticos em benefícios directos para a população, reduzindo a dependência de fontes tradicionais de energia e criando condições para uma transição gradual para soluções de cozinha mais limpas.
Segundo dados divulgados pelo portal O Económico, a expansão será realizada em duas fases: a actual oitava fase, que prevê mil novas ligações ainda em 2026, e a nona fase, que deverá acrescentar outras mil ligações ao longo de 2027.
Mais de 5 mil consumidores poderão estar ligados à rede
Com a conclusão das duas fases, o número de consumidores domésticos poderá aumentar dos actuais 3.118 para cerca de 5.118 famílias, representando um crescimento aproximado de 64%.
Actualmente, a rede de gás natural no norte de Inhambane abastece 3.171 consumidores, dos quais a maioria são residências.
A distribuição das ligações mostra uma forte concentração em Vilankulo, que lidera com:
- 2.122 ligações residenciais em Vilankulo;
- 701 em Inhassoro;
- 295 em Govuro.
A expansão pretende aproximar o gás natural das comunidades que vivem junto das infra-estruturas existentes, aproveitando o potencial energético da região.
Uma rede com mais de 670 quilómetros de infra-estrutura
O projecto representa um dos investimentos relevantes na utilização doméstica do gás natural em Moçambique.
Actualmente, a infra-estrutura de distribuição estende-se por mais de 670 quilómetros, incluindo cerca de 75 quilómetros de ramais submarinos responsáveis pelo transporte de gás para o Arquipélago de Bazaruto.
No entanto, a ENH explica que a expansão não pode ser feita de forma uniforme para todas as zonas, devido aos elevados custos associados à construção de novas ligações.
A prioridade será dada às áreas onde existe maior proximidade da rede, maior concentração populacional e maior viabilidade económica.
O desafio: levar gás às famílias tem custos elevados
Apesar de o gás natural existir em grandes quantidades no país, transformar esse recurso numa solução doméstica exige investimentos significativos.
Cada nova ligação envolve:
- construção de ramais;
- instalação de contadores;
- equipamentos de segurança;
- inspeções técnicas;
- manutenção da rede.
Diferentemente dos grandes consumidores industriais, que utilizam grandes volumes através de um único ponto de entrega, o sector residencial exige milhares de pequenas ligações individuais.
Para reduzir o peso financeiro sobre as famílias, o projecto continuará a beneficiar de subsídios da Companhia Moçambicana de Hidrocarbonetos (CMH), empresa participada pela ENH.
Famílias podem reduzir custos de energia
Para muitas comunidades beneficiadas, o gás canalizado representa uma alternativa mais económica comparativamente ao gás de botija, carvão vegetal e lenha.
Testemunhos recolhidos pela ENH indicam que algumas famílias conseguiram reduzir significativamente os gastos mensais com energia para cozinhar.
Um consumidor de Vilankulo afirmou que cerca de mil meticais, valor anteriormente utilizado para comprar gás engarrafado durante um mês, passou a ser suficiente para aproximadamente dois meses de consumo de gás canalizado.
Outros utilizadores relataram despesas mensais entre 468 e 500 meticais, valores considerados inferiores aos custos anteriormente suportados com fontes tradicionais de energia.
Além disso, os pagamentos podem ser realizados através de plataformas móveis como M-Pesa e e-Mola, facilitando o controlo do consumo pelas famílias.
Menos pressão sobre florestas e mais saúde nas casas
A expansão do gás canalizado poderá também ter impacto ambiental e social.
Ao substituir parcialmente a utilização de lenha e carvão vegetal, o projecto poderá contribuir para reduzir a pressão sobre os recursos florestais.
Nas residências, a redução do uso de combustíveis sólidos poderá diminuir a exposição das famílias ao fumo produzido durante a preparação dos alimentos, um problema associado a riscos para a saúde.
Turismo e pequenos negócios podem beneficiar
Além das famílias, a nova rede poderá impulsionar actividades económicas locais.
Sectores como:
- restaurantes;
- padarias;
- unidades de processamento alimentar;
- hotéis;
- lavandarias;
podem beneficiar de uma fonte energética mais estável e potencialmente mais barata.
O impacto poderá ser particularmente relevante em Vilankulo e no Arquipélago de Bazaruto, zonas onde o turismo representa uma das principais actividades económicas.
Expansão local ainda está distante da meta nacional
Apesar dos avanços em Inhambane, os números mostram que o desafio nacional continua enorme.
Moçambique pretende aumentar o acesso a soluções de cozinha limpa dos actuais 17% para 54%, abrangendo cerca de 4,5 milhões de famílias.
As duas mil novas ligações previstas pela ENH representam uma pequena parte dessa meta, mostrando que a expansão do gás canalizado terá de ser complementada por outras soluções, incluindo GPL, electricidade, biogás e fogões melhorados.
ENH aposta em transformar gás nacional em benefício comunitário
Para além da expansão energética, a ENH prevê manter investimentos sociais associados ao projecto, incluindo apoio à educação, saúde, formação técnico-profissional e iniciativas de geração de rendimento.
A aposta em Vilankulo, Inhassoro e Govuro representa uma tentativa de aproximar a população de uma das maiores riquezas naturais de Moçambique: o gás natural.
O desafio agora será garantir que estes recursos deixem de ser apenas uma promessa de exportação e passem a gerar benefícios concretos para as comunidades que vivem próximas das zonas produtoras.
Fonte: ENH / O Económico