Em Paris, França, o secretário-geral do partido ANAMOLA, Messias Uarreno, fez duras críticas à actual governação moçambicana, defendendo que o Presidente da República, Daniel Chapo, deve concentrar-se mais em resultados concretos e menos em discursos públicos, num momento em que o país enfrenta desafios económicos, sociais e de segurança cada vez mais complexos.
As declarações foram feitas numa entrevista concedida à Rádio França Internacional (RFI), à margem de uma visita de trabalho à capital francesa, onde o dirigente partidário manteve também encontros com representantes diplomáticos e actores políticos internacionais. Segundo Uarreno, Moçambique vive uma fase que exige liderança prática, capacidade de execução e respostas imediatas às necessidades da população.
“O país precisa de soluções, não de retórica. É tempo de trabalhar mais e falar menos”, afirmou, numa crítica directa à postura do Chefe de Estado.
Um partido jovem num espaço político apertado
Fundado em 2025 e liderado por Venâncio Mondlane, o ANAMOLA define-se como um partido jovem, de massas e nascido de uma forte mobilização popular no contexto eleitoral de 2024. Messias Uarreno explicou que a deslocação a Paris teve como objectivo reforçar laços internacionais, dar visibilidade ao partido e procurar apoios para a consolidação da sua estrutura interna.
O dirigente reconheceu, contudo, que o partido enfrenta dificuldades significativas, sobretudo financeiras e organizacionais, dependendo essencialmente de contribuições simbólicas dos seus membros e do apoio de simpatizantes. Ainda assim, garantiu que o ANAMOLA está empenhado na formação de quadros políticos e técnicos, visando uma presença mais estruturada e eficaz em todo o território nacional.
Segundo Uarreno, um dos maiores entraves à actuação política do partido é o que classificou como “espaço político reduzido”, provocado pela alegada partidarização das instituições do Estado, o que, no seu entender, compromete a democracia e a igualdade de oportunidades entre as forças políticas.
Exclusão do diálogo e críticas às prioridades do Governo
O secretário-geral do ANAMOLA criticou ainda a exclusão do partido do chamado diálogo político inclusivo, promovido pelo Governo. Garantiu que o ANAMOLA recolheu contribuições populares e as submeteu à Comissão Técnica responsável (COTE), defendendo que ainda há margem para corrigir o que considera ser uma falha grave no processo.
Uarreno rejeitou igualmente a narrativa do Presidente da República que aponta as manifestações pós-eleitorais como uma das principais causas do fraco desempenho governamental. Para o dirigente oposicionista, essa leitura representa uma tentativa de transferir responsabilidades, ignorando problemas estruturais acumulados ao longo dos anos.
Nesse contexto, criticou também os elevados gastos do Estado em viagens oficiais, considerando que esses recursos deveriam ser canalizados para sectores prioritários como a saúde, educação, água potável, energia e serviços básicos.
Cabo Delgado, terrorismo e investimentos estratégicos
Sobre a situação de segurança em Cabo Delgado, Messias Uarreno manifestou pesar pelas perdas humanas e voltou a questionar a eficácia da estratégia governamental. Criticou o discurso oficial que insiste em afirmar que o terrorismo está controlado, quando, segundo ele, há sinais de expansão da violência para outras províncias, como Nampula.
Relativamente ao projecto da TotalEnergies, considerou legítima a exigência de melhores garantias de segurança por parte da empresa, mas alertou para a necessidade de encontrar soluções que não paralisem investimentos estratégicos para o desenvolvimento do país.
Dinâmica interna, processos judiciais e visão internacional
Abordando a saída de alguns membros do partido, sobretudo em Cabo Delgado, Uarreno classificou o fenómeno como normal numa força política em fase inicial. Afirmou que muitas dessas saídas se devem a expectativas pessoais frustradas e não a divergências ideológicas profundas, acusando adversários políticos de tentarem explorar o tema para fragilizar o partido.
Os processos judiciais movidos contra Venâncio Mondlane foram descritos como infundados e politicamente motivados. Segundo Uarreno, o líder do ANAMOLA limitou-se a exercer os seus direitos políticos e a mobilizar cidadãos no âmbito da participação democrática.
No plano externo, o dirigente revelou que o partido mantém contactos com várias forças políticas em Portugal, incluindo o Chega, a Iniciativa Liberal e o PSD, com o objectivo de obter apoio para a democracia moçambicana e para o acompanhamento de processos eleitorais e contestações.
Um partido em construção e uma mensagem para 2026
Ainda sem uma orientação ideológica formalmente definida, o ANAMOLA afirma centrar a sua actuação nas necessidades concretas das famílias moçambicanas, priorizando emprego, segurança, serviços sociais e dignidade humana.
Messias Uarreno concluiu a sua intervenção manifestando esperança num 2026 mais estável, tanto a nível nacional como internacional, reiterando o compromisso do partido com a verdade, a mudança política e a melhoria efectiva das condições de vida dos cidadãos.
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