Especialistas alertam que inclusão financeira não basta: Moçambique precisa transformar acesso a serviços financeiros em investimento real para agricultura, indústria e pequenas empresas
O acesso ao financiamento produtivo voltou ao centro do debate económico em Moçambique durante a 21.ª edição da Conferência Anual do Sector Privado (CASP 2026), onde representantes do sector financeiro defenderam uma mudança profunda na forma como o dinheiro chega às empresas, especialmente às Pequenas e Médias Empresas (PME).
Durante o painel “Financiamento e Competitividade: Novas Soluções para Acelerar o Investimento Produtivo, a Partilha de Risco e a Inclusão das PME”, os participantes alertaram que, apesar dos avanços registados na inclusão financeira e digitalização, grande parte das empresas que produzem e transformam a economia continuam sem acesso ao crédito necessário para crescer.
A mensagem central do debate foi clara:
Moçambique conseguiu ampliar o acesso aos serviços financeiros, mas ainda enfrenta dificuldades em transformar esse avanço em financiamento para produção.
Gapi defende mudança no modelo de financiamento
O Presidente do Conselho de Administração da Gapi – Sociedade de Investimentos, Adolfo Muholove, afirmou que o crescimento das PME depende de um sistema financeiro mais adaptado à realidade dos sectores produtivos.
Segundo o responsável, o principal desafio não é apenas disponibilizar dinheiro, mas garantir que os recursos chegam aos locais onde a produção acontece.
“Sem financiamento adequado não há competitividade. A agenda de produzir, transformar e competir depende de um sistema financeiro capaz de chegar aos sectores estratégicos”, afirmou.
Entre os sectores considerados fundamentais estão:
- agricultura;
- agro-indústria;
- indústria transformadora;
- logística;
- inovação tecnológica.
O problema: dinheiro existe, mas não chega à produção
Um dos principais pontos levantados durante a CASP 2026 é a diferença entre inclusão financeira e inclusão produtiva.
Nos últimos anos, Moçambique registou crescimento no uso de:
- serviços bancários digitais;
- carteiras móveis;
- plataformas financeiras;
- pagamentos electrónicos.
Mas, segundo os participantes, esse avanço ainda não resolveu o principal problema das empresas:
obter financiamento para comprar equipamentos, aumentar produção, contratar trabalhadores e expandir negócios.
Adolfo Muholove explicou que muitas vezes o crédito continua concentrado em actividades consideradas de menor risco, enquanto sectores produtivos enfrentam maiores dificuldades para conseguir financiamento.
Agricultura continua como um dos maiores desafios
A agricultura é um dos sectores mais afectados pela falta de financiamento adequado.
Apesar de empregar grande parte da população moçambicana e representar uma das principais bases da economia nacional, muitos produtores e empresas agrícolas continuam com dificuldades para obter capital.
Os especialistas defendem que o sector precisa de soluções financeiras específicas, incluindo:
- crédito adaptado aos ciclos agrícolas;
- seguros contra riscos climáticos;
- financiamento para processamento;
- investimento em cadeias de valor.
Sem esses mecanismos, muitos produtores permanecem presos a uma economia de baixa produtividade.
PME precisam de financiamento para transformar a economia
As pequenas e médias empresas representam uma parte importante da geração de emprego em Moçambique, mas muitas enfrentam obstáculos para crescer.
Entre os principais problemas estão:
- falta de garantias para obter empréstimos;
- juros elevados;
- pouca capacidade financeira;
- dificuldades em apresentar documentação exigida pelos bancos.
Durante a conferência, os representantes defenderam uma nova arquitectura financeira baseada na partilha de riscos entre:
- instituições financeiras;
- Governo;
- parceiros de desenvolvimento;
- sector privado.
A nova arquitectura financeira defendida na CASP 2026
A proposta apresentada passa por criar mecanismos capazes de aproximar o sistema financeiro das necessidades reais das empresas.
Segundo os participantes, o novo modelo deve incluir:
Mais financiamento de longo prazo
Empresas industriais e agrícolas precisam de tempo para gerar retorno dos investimentos.
Partilha de risco
Bancos e investidores precisam de mecanismos que reduzam o risco de financiar sectores produtivos.
Mais apoio técnico
Muitas PME precisam não apenas de dinheiro, mas também de gestão, planeamento e preparação para investir.
Ligação entre crédito e produção
O financiamento deve estar directamente ligado a actividades que aumentam a capacidade produtiva nacional.
FSDMoç reforça importância de soluções inovadoras
A FSDMoç também esteve envolvida no debate, defendendo soluções que permitam ampliar o acesso das PME ao financiamento.
A instituição tem defendido o fortalecimento do sistema financeiro moçambicano através de inovação, inclusão e criação de instrumentos que aproximem empresas dos recursos necessários para crescer.
🇲🇿 Por que este debate é importante para Moçambique?
A discussão acontece num momento em que o país procura aumentar a produção nacional, reduzir dependência das importações e criar mais oportunidades económicas.
Sem um sistema financeiro orientado para produção, especialistas alertam que sectores estratégicos podem continuar limitados.
O desafio não é apenas colocar mais pessoas dentro do sistema financeiro.
O verdadeiro desafio é:
transformar contas bancárias e serviços digitais em máquinas, fábricas, produção agrícola e novos empregos.
Análise final: Moçambique precisa passar da inclusão financeira para a inclusão produtiva
A CASP 2026 trouxe uma das principais discussões sobre o futuro económico do país:
ter acesso a serviços financeiros não significa necessariamente ter acesso ao desenvolvimento.
O próximo passo, segundo os especialistas, será construir uma arquitectura financeira capaz de apoiar quem produz, transforma e cria emprego.
Para as PME moçambicanas, o futuro dependerá menos da existência de dinheiro no sistema e mais da capacidade de fazer esse dinheiro chegar aos sectores certos.
Fonte: CASP 2026 / Gapi – Sociedade de Investimentos / FSDMoç