Enquanto milhões de angolanos continuam a enfrentar dificuldades para garantir alimentos e o país gasta milhões de dólares na importação de produtos agrícolas, mais de 80% das terras aráveis permanecem sem qualquer cultivo. O próprio Governo reconhece que a realidade expõe um dos maiores paradoxos da economia angolana e defende mudanças profundas para transformar o potencial agrícola em riqueza.
Angola dispõe de uma das maiores reservas de terras agrícolas do continente africano, mas continua longe de aproveitar essa vantagem estratégica. Dados apresentados pelo ministro da Agricultura e Florestas, Isaac dos Anjos, revelam que o país possui 35 milhões de hectares de terras aráveis, porém apenas 6,2 milhões de hectares, equivalentes a 17,7%, estão actualmente em produção.
Os números, divulgados durante uma audição na Comissão de Economia e Finanças da Assembleia Nacional, significam que mais de 28 milhões de hectares permanecem improdutivos, apesar da crescente necessidade de aumentar a produção alimentar e reduzir a dependência das importações.
Para analistas económicos, trata-se de uma realidade que continua a limitar o crescimento da agricultura nacional, a criação de emprego e a diversificação da economia, numa altura em que Angola procura reduzir a dependência das receitas petrolíferas.
“Se somos tão ricos, porque continuamos pobres?”
Durante a sua intervenção, Isaac dos Anjos deixou uma das declarações mais fortes dos últimos tempos sobre o estado da agricultura angolana.
O governante questionou a narrativa frequentemente repetida de que Angola possui recursos naturais suficientes para garantir prosperidade automática.
“Qualquer discurso começa por dizer que Angola é rica, tem terras aráveis, água e muitos recursos. Mas, se isso fosse verdade, acham mesmo que o nosso povo seria assim tão pobre?”, questionou o ministro.
Segundo explicou, possuir terras disponíveis não significa, por si só, capacidade produtiva. A falta de investimento científico, correcção dos solos, fertilização adequada e tecnologias modernas continua a impedir que grande parte dessas áreas produza com eficiência.
Isaac dos Anjos rejeitou igualmente a ideia de que os solos angolanos são naturalmente férteis em toda a sua extensão.
“É preciso corrigir os solos, investir em fertilização e recorrer à ciência”, defendeu, alertando que muitos terrenos necessitam de intervenção técnica antes de poderem alcançar elevados níveis de produtividade.
Agricultura continua dependente de métodos tradicionais
Outro dado apresentado durante a audição mostra que a agricultura angolana continua fortemente dependente de técnicas tradicionais.
Segundo o Ministério da Agricultura:
- 66% da produção agrícola continua a ser realizada manualmente;
- 28% utiliza tracção animal;
- Apenas 6% beneficia de mecanização agrícola.
Esta realidade reduz significativamente a produtividade por hectare quando comparada com países que utilizam agricultura mecanizada em larga escala.
Apesar dos avanços registados nos últimos anos, especialistas consideram que o baixo nível de mecanização continua a ser um dos principais obstáculos para aumentar rapidamente a produção nacional.
Agricultura familiar continua a dominar o sector
Os dados oficiais mostram igualmente que a agricultura em Angola continua sustentada sobretudo pelos pequenos produtores.
Dos 6,2 milhões de hectares actualmente cultivados:
- 5,6 milhões de hectares pertencem à agricultura familiar;
- Apenas 608 mil hectares são explorados pelo sector empresarial.
O país dispõe ainda de aproximadamente 135 mil hectares irrigados, número considerado insuficiente para explorar plenamente o potencial agrícola nacional, sobretudo perante os desafios das alterações climáticas.
Produção cresce, mas continua abaixo do potencial
Apesar das limitações estruturais, o Governo informou que Angola registou uma produção agrícola de aproximadamente 30,4 milhões de toneladas durante a campanha agrícola 2024/2025.
Nesse período foram contabilizadas cerca de 3,5 milhões de explorações agrícolas, enquanto o sector prestou assistência técnica a aproximadamente 5,5 milhões de explorações.
Segundo o ministro, a agricultura representa actualmente 23% do Produto Interno Bruto (PIB), demonstrando a importância crescente do sector para a economia nacional.
Ainda assim, economistas defendem que este contributo poderia ser significativamente superior caso Angola conseguisse aproveitar uma parte considerável das terras actualmente abandonadas.
Fertilizantes continuam a ser desafio estratégico
Outro dos problemas identificados pelo Governo prende-se com o acesso aos fertilizantes.
Isaac dos Anjos revelou que Angola necessita anualmente de cerca de 180 mil toneladas de fertilizantes, mas continua a enfrentar dificuldades para atingir esse nível de abastecimento.
Actualmente, o país luta para alcançar cerca de 170 mil toneladas, situação que condiciona a produtividade agrícola em várias regiões.
Sem fertilização adequada, muitos solos apresentam baixos níveis de rendimento, obrigando os agricultores a produzir abaixo da sua capacidade.
Produção de carne ainda não reduz importações
Durante a audição parlamentar, o Governo apresentou igualmente os números da produção pecuária nacional em 2025:
- 163 mil toneladas de carne caprina;
- 115 mil toneladas de carne bovina;
- 64 mil toneladas de carne de frango;
- 13 340 toneladas de carne suína.
Apesar destes resultados, Angola continua a recorrer à importação de diversos produtos alimentares para satisfazer a procura interna.
O grande desafio: transformar potencial em riqueza
Especialistas afirmam que Angola reúne praticamente todos os recursos necessários para se tornar uma das maiores potências agrícolas de África.
O país dispõe de extensas áreas agrícolas, disponibilidade de água em várias regiões, condições climáticas diversificadas e milhões de pequenos produtores rurais.
Contudo, transformar esse potencial em riqueza exige investimentos contínuos em mecanização, irrigação, fertilização, investigação científica, assistência técnica e infra-estruturas logísticas capazes de ligar as zonas de produção aos mercados consumidores.
Enquanto mais de 80% das terras férteis permanecerem sem utilização, o país continuará distante do objectivo de alcançar maior segurança alimentar, reduzir as importações e consolidar uma economia menos dependente do petróleo.
Fonte: Lusa, com informações do Ministério da Agricultura e Florestas de Angola.