A suspensão da maior indústria do país expõe uma dependência perigosa: Moçambique perdeu uma máquina de exportação que gerava bilhões e sustentava milhares de empregos
A paralisação da Mozal abriu uma das maiores crises industriais dos últimos anos em Moçambique, mas novos dados revelam a dimensão económica daquilo que está em jogo: antes de interromper a produção, a indústria de alumínio já tinha garantido mais de 371 milhões de dólares em receitas de exportação apenas nos primeiros três meses de 2026.
Os números divulgados pelo Banco de Moçambique (BdM) mostram que as barras de alumínio continuavam a dominar as exportações da indústria transformadora nacional, confirmando o peso gigante da Mozal na economia do país.
A revelação acontece num momento crítico, depois de a fundição de alumínio ter entrado em regime de manutenção e conservação devido à falta de uma solução energética considerada viável pela sua accionista maioritária, a australiana South32.
UMA INDÚSTRIA QUE VALIA MILHÕES PAROU POR CAUSA DA ENERGIA
O impacto da suspensão tornou-se ainda mais evidente quando comparado com o histórico recente da empresa.
Em 2025, as exportações de alumínio atingiram um recorde de 1,35 mil milhões de dólares, um crescimento de quase 20% face aos 1,13 mil milhões de dólares registados em 2024.
Ou seja, em apenas um ano, a indústria de alumínio movimentou valores superiores aos orçamentos anuais de vários sectores estratégicos do país.
Segundo o Banco de Moçambique, o crescimento das exportações foi impulsionado tanto pela subida dos preços internacionais como pelo aumento do volume vendido ao exterior.
Mas a mesma indústria que trouxe receitas milionárias enfrenta agora o maior teste da sua história.
SOUTH32 LANÇA ALERTA: SEM ENERGIA BARATA, MOZAL NÃO SOBREVIVE
A South32 confirmou que a Mozal suspendeu a produção depois de não conseguir garantir fornecimento de energia suficiente e a preços competitivos.
O director executivo da empresa, Graham Kerr, afirmou que durante seis anos foram realizadas negociações com o Governo moçambicano, a empresa sul-africana Eskom e outras entidades, mas sem uma solução definitiva.
A principal exigência da empresa é garantir energia de longo prazo a um custo que permita competir no mercado internacional.
A South32 argumenta que a tarifa proposta, próxima de 100 dólares por megawatt-hora, está muito acima da realidade de muitas fundições de alumínio no mundo, onde os contratos podem ficar abaixo de 50 dólares por megawatt-hora.
EFEITO DOMINÓ AMEAÇA PARQUE INDUSTRIAL DE BELULUANE
O problema ultrapassa os portões da Mozal.
A paralisação colocou sob pressão dezenas de empresas que dependiam directamente da actividade da fundição para fornecer serviços, equipamentos e operações industriais.
No Parque Industrial de Beluluane, pelo menos cinco empresas já tinham encerrado actividades e outras dezenas avaliavam medidas semelhantes.
Segundo a MozParks, entidade gestora do parque, cerca de 25 empresas estavam ligadas ao fornecimento de bens e serviços à Mozal, criando um efeito dominó sobre empregos e negócios nacionais.
A dimensão do impacto é enorme: a Mozal representava aproximadamente metade da contribuição da indústria transformadora para o Produto Interno Bruto (PIB) industrial, equivalente a cerca de 4% do PIB nacional.
GOVERNO PROMETE RECUPERAR A “JOIA INDUSTRIAL” DO PAÍS
O Presidente da República, Daniel Chapo, garantiu que o Governo continua empenhado em encontrar uma solução para o regresso da Mozal.
Segundo o Chefe do Estado, existem contactos com as partes envolvidas e há confiança numa retoma da actividade, embora sem prazo definido.
“Continuamos a trabalhar para que a Mozal retome a actividade e temos a certeza absoluta de que vamos encontrar uma solução”, afirmou Daniel Chapo.
O GRANDE ALERTA PARA A ECONOMIA MOÇAMBICANA
O caso Mozal expõe uma fragilidade antiga da economia nacional: a dependência de grandes projectos estrangeiros para gerar exportações e receitas.
Durante 25 anos, a fundição foi considerada um símbolo da industrialização moçambicana, mas a actual crise mostra que grandes investimentos precisam de bases sólidas, especialmente energia competitiva, fornecedores nacionais fortes e maior integração económica.
A pergunta que agora domina o sector industrial é simples:
Moçambique conseguirá recuperar a sua maior fábrica ou perderá uma das principais fontes de exportação e emprego do país?
Fonte: Banco de Moçambique / Lusa
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