Moçambique quer reduzir drasticamente a dependência de alimentos importados e transformar o sector agrícola num dos maiores motores da economia nacional. O Governo anunciou uma estratégia de modernização que promete aumentar a produção, fortalecer a indústria, criar emprego e abrir caminho para que o país deixe de importar produtos que pode produzir internamente.
A produção nacional de alimentos voltou ao centro da estratégia económica do Governo. Durante o painel “Recursos Naturais: Resiliência e Bancabilidade – Digitalizar para Proteger e Produzir”, realizado no âmbito do BFSI Mozambique 2026, o Executivo reafirmou que pretende acelerar a modernização da agricultura para reduzir as importações, reforçar a segurança alimentar e transformar Moçambique num exportador competitivo de produtos agrícolas.
A posição foi apresentada por Jaime Chissico, em representação do ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Mito Albino, que defendeu que o país já possui recursos suficientes para produzir muito mais, mas precisa agora de transformar esse potencial em riqueza real.
“A prioridade principal do Governo é produzir alimentos”, afirmou o responsável, acrescentando que o objectivo passa por garantir segurança alimentar, abastecer a indústria nacional e aumentar as exportações.
Moçambique quer produzir aquilo que ainda compra no exterior
Apesar de possuir milhões de hectares de terras férteis, abundância de água e condições climáticas favoráveis, Moçambique continua a importar uma quantidade significativa de produtos alimentares que poderiam ser produzidos localmente.
Segundo o Governo, inverter esta realidade tornou-se uma prioridade estratégica.
A nova aposta passa por aumentar a produtividade agrícola através da utilização de sementes melhoradas, fertilizantes, investigação agrária, mecanização, infra-estruturas de comercialização e unidades de agro-processamento capazes de acrescentar valor à produção nacional.
O objectivo é reduzir a saída de divisas, fortalecer a indústria alimentar e criar novas oportunidades de emprego em todo o país.
Pequenos agricultores continuam no centro da estratégia
Um dos aspectos mais destacados pelo Executivo foi o papel desempenhado pelos pequenos produtores.
Actualmente, mais de 98% da produção agrícola nacional continua a ser assegurada por agricultores familiares.
Segundo Jaime Chissico, a meta do Governo consiste em integrar estes produtores nas cadeias de valor nacionais e regionais, permitindo-lhes vender mais, produzir com maior eficiência e alcançar novos mercados.
Especialistas defendem que, sem esta integração, será difícil aumentar significativamente a produção nacional e reduzir a dependência alimentar.
Tecnologia passa a ser arma para aumentar a produção
A digitalização constitui outro dos pilares da nova estratégia agrícola.
Segundo o Governo, as novas tecnologias deverão ser utilizadas tanto para proteger os recursos naturais como para aumentar a produtividade agrícola.
Entre as medidas previstas encontram-se:
- registo digital dos produtores;
- sistemas modernos de extensão agrária;
- agricultura inteligente baseada em dados;
- monitorização ambiental e geoespacial;
- rastreabilidade da produção agrícola.
De acordo com Jaime Chissico, estes instrumentos permitirão reduzir perdas, aumentar a eficiência e melhorar a competitividade dos produtores moçambicanos.
“Com a digitalização teremos mais produção, menos perdas e mais competitividade”, afirmou.
Reformas querem atrair mais investimento privado
O Executivo considera igualmente essencial criar um ambiente mais favorável ao investimento privado.
Para isso, anunciou que continua a trabalhar em reformas ligadas à legislação sobre terras, sementes, seguro agrário, incentivos fiscais, políticas ambientais e parcerias público-privadas.
No caso da nova Lei de Terras, o objectivo é garantir que os terrenos disponíveis sejam efectivamente utilizados para produzir riqueza.
Segundo o representante do Ministério, a intenção é transformar a terra num activo económico capaz de impulsionar o crescimento da agricultura comercial.
Bancos exigem mais transparência no campo
Outro desafio identificado prende-se com o acesso ao financiamento.
O Governo reconhece que muitas instituições financeiras continuam relutantes em conceder crédito ao sector agrícola devido à falta de informação fiável sobre a produção.
Com a digitalização dos produtores e das cadeias de valor, pretende-se aumentar a transparência e oferecer aos bancos maior segurança para financiar projectos agrícolas.
“Os bancos precisam de confiança. Precisam de boa informação, sustentabilidade e saber exactamente de onde vem a produção”, explicou Jaime Chissico.
Transformar recursos naturais em riqueza continua a ser o grande desafio
Apesar do enorme potencial agrícola, florestal, pesqueiro e ambiental, o Executivo reconhece que Moçambique ainda não conseguiu converter plenamente esses recursos em desenvolvimento económico.
Segundo o Governo, o futuro passa por uma cooperação mais forte entre Estado, sector privado, instituições financeiras, universidades, empresas tecnológicas e parceiros internacionais.
A expectativa é que esta combinação permita acelerar a modernização da agricultura, aumentar a produção nacional, reduzir as importações e consolidar um sector agro-industrial mais competitivo.
Se a estratégia produzir os resultados esperados, Moçambique poderá diminuir significativamente a dependência alimentar externa e transformar o campo num dos principais motores do crescimento económico nacional.
Fonte: Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas, intervenção no BFSI Mozambique 2026.