Durante décadas, Moçambique investiu milhares de milhões de dólares em estradas, barragens, portos e grandes projectos. No entanto, uma pergunta continuou sem resposta: por que razão o crescimento económico nem sempre se traduziu em mais empregos, mais fábricas e melhores condições de vida? O Governo acredita ter encontrado uma nova estratégia para inverter este cenário. Com um investimento estimado em 38,6 mil milhões de dólares, o novo Programa Integrado de Investimentos (PII) promete transformar a forma como o país produz, industrializa e cria riqueza. Mas o verdadeiro desafio começa agora: fazer com que o plano saia do papel e produza resultados concretos.
Uma das maiores apostas económicas da última década
O Conselho de Ministros aprovou o Programa Integrado de Investimentos (PII) 2026–2030, considerado um dos mais ambiciosos planos de desenvolvimento económico já lançados em Moçambique.
A iniciativa mobiliza US$38,6 mil milhões para financiar projectos estruturantes que deverão impulsionar a industrialização, aumentar a produção nacional, modernizar infra-estruturas e criar oportunidades de emprego em todas as regiões do país.
O programa pretende transformar as prioridades da Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDE 2025–2044) e do Programa Quinquenal do Governo em investimentos concretos, capazes de gerar impacto económico e social.
Quase dois milhões de empregos prometidos
Entre as metas mais ambiciosas do PII está a criação de aproximadamente 1,88 milhões de postos de trabalho até 2030.
Segundo o Governo, cerca de 675 mil empregos serão directos, enquanto mais de 1,2 milhões deverão surgir de forma indirecta através da expansão das actividades económicas.
Caso os objectivos sejam alcançados, este poderá tornar-se um dos maiores programas de geração de emprego da história recente de Moçambique.
Contudo, especialistas alertam que o sucesso dependerá não apenas da construção das infra-estruturas, mas sobretudo da instalação de empresas capazes de produzir, contratar trabalhadores e gerar valor acrescentado.
O dinheiro será aplicado onde pode gerar maior impacto
Dos US$38,6 mil milhões, aproximadamente US$33,9 mil milhões serão destinados ao sector económico.
Os investimentos concentram-se principalmente em:
- Transportes e logística (30,5%);
- Agricultura (21,6%);
- Energia (18,5%);
- Indústria (15,8%).
Os restantes recursos serão canalizados para educação, saúde, água, saneamento, digitalização, juventude e desenvolvimento do capital humano.
Segundo o Executivo, a estratégia procura criar uma economia integrada, onde estradas, energia, indústria e formação profissional avancem em simultâneo, evitando investimentos isolados que produzem poucos resultados.
O Governo quer deixar de exportar apenas matérias-primas
Um dos principais objectivos do programa é alterar a estrutura da economia moçambicana.
Actualmente, grande parte dos recursos naturais do país é exportada com pouco ou nenhum processamento industrial.
O ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, defende que chegou o momento de Moçambique produzir mais, transformar localmente aquilo que produz e competir com maior valor acrescentado.
Na prática, o Governo pretende incentivar o processamento agrícola, desenvolver parques industriais, criar fábricas e integrar empresas nacionais nas cadeias de produção dos grandes projectos de mineração, gás e energia.
20 parques industriais podem mudar o mapa económico
Entre os projectos mais emblemáticos está a criação de 20 parques industriais, distribuídos por diferentes províncias.
A iniciativa pretende oferecer terrenos preparados, energia, água, logística e serviços partilhados para facilitar a instalação de novas empresas.
Segundo as estimativas oficiais, estes parques poderão gerar cerca de 200 mil empregos directos e indirectos, embora especialistas defendam que o verdadeiro sucesso dependerá da capacidade de atrair investidores e manter elevados níveis de ocupação.
Infra-estruturas para reduzir custos e ligar o país
Outra prioridade será o reforço das grandes infra-estruturas nacionais.
O programa inclui investimentos na reabilitação da Estrada Nacional Número Um (EN1), na futura Linha Ferroviária Norte–Sul, em corredores logísticos, portos e novas linhas de transmissão de energia.
A intenção é reduzir os custos de transporte, facilitar o escoamento da produção agrícola e industrial e aumentar a competitividade das empresas moçambicanas nos mercados interno e internacional.
Segundo Salim Valá, não basta construir estradas ou linhas férreas; essas infra-estruturas precisam de estar ligadas às zonas produtivas para gerar desenvolvimento económico.
O maior desafio será transformar promessas em resultados
Apesar da dimensão histórica do investimento, o próprio Governo reconhece que o sucesso do programa dependerá de vários factores.
Entre eles estão a capacidade de mobilizar investimento privado, garantir disciplina fiscal, preparar projectos tecnicamente viáveis, fortalecer os governos provinciais e assegurar transparência na execução.
Grande parte dos US$38,6 mil milhões deverá ser financiada através de parcerias público-privadas, investimento privado, fundos internacionais e financiamento concessionado, reduzindo a pressão sobre as contas públicas.
Mais do que construir obras, o desafio é transformar a economia
Para muitos analistas, o verdadeiro teste do Programa Integrado de Investimentos não será o valor anunciado nem o número de projectos aprovados.
O sucesso será medido pela capacidade de transformar estradas em comércio, energia em produção, parques industriais em fábricas, recursos naturais em produtos com valor acrescentado e investimento em empregos permanentes.
Se as metas forem cumpridas, Moçambique poderá iniciar um novo ciclo de industrialização e crescimento económico. Caso contrário, o país corre o risco de repetir um problema que marcou vários programas anteriores: grandes investimentos anunciados, mas com impacto limitado na vida da população. ( POR : PAULA E JOSE )
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