A Assembleia da República de Moçambique está a enfrentar uma crescente pressão social, depois de analisar 185 petições e queixas relacionadas com conflitos laborais e segurança social num curto espaço de dois meses, entre Fevereiro e Março de 2026. Os números revelam não apenas o aumento das tensões no mercado de trabalho, mas também os desafios estruturais que continuam a marcar a relação entre empregadores, trabalhadores e instituições públicas no país.
De acordo com dados apresentados pelo presidente da Comissão de Petições, Queixas e Reclamações, Válter Paulo, uma parte significativa destas reclamações está directamente ligada a disputas laborais, evidenciando fragilidades persistentes na protecção social e na mediação de conflitos. Do total analisado, 59 petições são novas, enquanto 126 transitaram de períodos anteriores, sinal claro de que muitos casos permanecem sem resolução efectiva.
A distribuição geográfica dos processos também chama a atenção. A maioria das queixas concentra-se no sul do país, com 111 casos, enquanto as regiões Centro e Norte somam 37, sugerindo uma pressão mais intensa nas zonas economicamente mais activas, onde a dinâmica laboral é mais complexa e competitiva.
Para além das questões laborais, o Parlamento avaliou ainda 60 petições ligadas ao sector social, 27 relacionadas com o uso e aproveitamento da terra, 14 sobre habitação e urbanização, e dois casos ligados à mineração. Este retrato multifacetado revela que as preocupações dos cidadãos vão muito além do emprego, abrangendo áreas sensíveis como acesso à terra, condições de vida e direitos sociais básicos.
Entre as decisões tomadas, a comissão propôs o encerramento de pelo menos oito processos por já terem alcançado um desfecho, enquanto outros cinco deverão ser arquivados por desistência dos requerentes ou falta de comparência nas audições. Em paralelo, quatro petições foram consideradas ilegais e recomendadas para indeferimento, reforçando o papel do Parlamento na triagem jurídica das reclamações.
Um dos pontos mais sensíveis diz respeito às 20 petições ligadas à administração da justiça, para as quais foi sugerido o envio de pedidos de informação ao Ministério Público, evidenciando preocupações quanto ao funcionamento e à transparência do sistema judicial.
Apesar do volume elevado de trabalho, a Comissão admite limitações operacionais. A falta de meios materiais e financeiros tem dificultado a realização de audições presenciais nas províncias, um passo considerado essencial para garantir maior proximidade com os cidadãos e uma análise mais aprofundada dos casos.
Além disso, os membros da comissão defendem a necessidade urgente de reforço de competências técnicas, propondo formações específicas em matérias de direito e maior cooperação com parlamentos de outros países, numa tentativa de melhorar a capacidade de resposta institucional.
Este cenário surge num momento em que Moçambique enfrenta desafios económicos e sociais complexos, onde o aumento de queixas formais pode ser interpretado como um sinal de maior consciência cívica, mas também como reflexo de dificuldades persistentes na resolução de problemas estruturais.
Num país em transformação, o volume crescente de petições coloca o Parlamento no centro da mediação entre cidadãos e Estado — e reforça a urgência de respostas mais rápidas, eficazes e transparentes. | por : CARLOS ALBERTOS |