Durante anos, a Mozal foi apresentada como um dos maiores símbolos da industrialização de Moçambique. Hoje, porém, a realidade é bem diferente. A paralisação da maior fundição de alumínio do país já custou mais de 104 milhões de euros à australiana South32, mas o impacto vai muito além dos prejuízos financeiros. Nos bastidores, decorrem negociações, avaliações de compra e uma corrida para encontrar uma solução capaz de evitar que uma das mais importantes unidades industriais do país permaneça inativa por tempo indeterminado.
Os custos da paralisação continuam a aumentar
No relatório referente ao exercício fiscal de 2026, encerrado a 30 de Junho, a South32 revelou que registou custos extraordinários de 104 milhões de euros relacionados com a suspensão das operações da Mozal.
Desse montante, cerca de 28 milhões de euros correspondem a indemnizações pagas aos trabalhadores e despesas com rescisões de contratos, enquanto outros 76 milhões de euros resultam de perdas contabilísticas associadas a matérias-primas, consumíveis e inventários que deixaram de ser utilizados após a fábrica entrar em regime de conservação e manutenção.
Os números mostram a dimensão do impacto financeiro provocado pela interrupção das actividades da maior unidade industrial de Moçambique.
Produção caiu para zero após Março
Os efeitos da paralisação refletem-se igualmente na produção.
Até Março de 2026, a Mozal conseguiu produzir cerca de 248 mil toneladas de alumínio, uma redução de 30% em comparação com o exercício anterior. As vendas também diminuíram significativamente, passando de 351 mil para 275 mil toneladas, o equivalente a uma quebra de 22%.
A situação tornou-se ainda mais crítica entre Abril e Junho. Durante esse período, correspondente ao primeiro trimestre completo após a suspensão, a produção foi totalmente interrompida.
As únicas vendas realizadas resultaram do escoamento de aproximadamente 46 mil toneladas de alumínio que ainda permaneciam armazenadas, sem qualquer produção nova.
A energia continua no centro da crise
O encerramento da Mozal não aconteceu por falta de procura de alumínio nem por dificuldades técnicas na fábrica.
O verdadeiro impasse continua a ser o custo da energia eléctrica.
A produção de alumínio exige fornecimento contínuo de electricidade durante 24 horas por dia, e a Mozal necessita de aproximadamente 950 megawatts para manter as suas linhas de produção em funcionamento.
Segundo a South32, a tarifa apresentada durante as negociações rondava os 100 dólares por megawatt-hora, enquanto a empresa defendia que apenas conseguiria operar de forma sustentável pagando cerca de 51 dólares por megawatt-hora.
Como a electricidade representa aproximadamente um terço de todos os custos operacionais da fundição, o acordo nunca foi alcançado, levando à suspensão das operações em Março.
A situação foi agravada pelas limitações no sistema energético regional, incluindo os efeitos da seca na barragem de Cahora Bassa e o fim do contrato de fornecimento através da rede da sul-africana Eskom.
Milhares de empregos continuam afectados
Antes da paralisação, a Mozal empregava directa e indirectamente mais de quatro mil trabalhadores, além de sustentar dezenas de empresas fornecedoras de bens e serviços.
Especialistas alertam que a interrupção prolongada da actividade não afecta apenas os trabalhadores da fundição, mas toda a cadeia industrial ligada aos transportes, logística, manutenção, alimentação, segurança e prestação de serviços.
A Mozal também continua a representar um activo estratégico para a economia moçambicana devido ao seu peso nas exportações industriais e na arrecadação de receitas.
Um detalhe que muitos desconhecem
Enquanto muitos acreditavam que a South32 procuraria rapidamente reabrir a fábrica, a empresa tomou uma decisão que levantou novas dúvidas sobre o futuro da Mozal.
No início de Julho, anunciou a venda de parte dos seus activos mundiais de alumínio à norte-americana Alcoa Corporation, numa operação avaliada em até 4,8 mil milhões de euros.
Curiosamente, a Mozal ficou de fora da transacção.
Esta decisão alimentou especulações sobre o futuro da fundição, embora a South32 continue oficialmente a afirmar que está a analisar diferentes alternativas para a unidade instalada em Moçambique.
Há investidores interessados em salvar a Mozal
Apesar do cenário preocupante, surgem sinais de que a história da Mozal pode ainda não ter terminado.
A Industrial Development Corporation (IDC), instituição sul-africana que detém 32,48% da fundição, contratou consultores independentes para avaliar a eventual aquisição da participação maioritária da South32.
O objectivo passa por encontrar um novo modelo de gestão e, sobretudo, garantir um fornecimento de energia a preços considerados sustentáveis, condição vista como essencial para permitir uma futura retoma da produção.
O futuro permanece em aberto
Embora a Mozal continue em regime de conservação e manutenção, nenhuma decisão definitiva foi anunciada sobre o encerramento permanente da fábrica.
O desfecho dependerá, sobretudo, da capacidade de alcançar um novo acordo energético que permita reduzir os custos de produção e tornar novamente viável uma das maiores operações industriais de África Austral.
Enquanto isso não acontece, os prejuízos continuam a crescer e a incerteza mantém milhares de trabalhadores, fornecedores e investidores à espera de uma solução que poderá definir o futuro da indústria moçambicana. ( produção : paula nhampossa e jose campira)
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