Com 46,2% da população adulta em situação de analfabetismo, a província enfrenta uma crise educacional agravada pela saída de alfabetizadores e falta de pagamento de subsídios que ameaça travar o combate à exclusão escolar.
A província da Zambézia continua mergulhada num dos maiores desafios educacionais de Moçambique: quase metade da população com 15 anos ou mais não sabe ler nem escrever, revelam os dados do mais recente Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF).
Os números mostram que 46,2% dos adultos da província são analfabetos, uma percentagem superior à média nacional, actualmente fixada em 38,3%.
Na prática, significa que em cada 100 pessoas adultas na Zambézia, cerca de 46 enfrentam limitações no acesso à leitura e escrita, uma realidade que afecta directamente oportunidades de emprego, acesso à informação, participação social e desenvolvimento económico das comunidades.
Programa de alfabetização perde força após saída de milhares de beneficiários
Apesar dos esforços realizados ao longo dos anos, o combate ao analfabetismo na Zambézia enfrenta novos obstáculos.
Nos últimos três anos, vários alfabetizadores abandonaram os programas comunitários devido ao atraso no pagamento dos seus subsídios, reduzindo a capacidade de resposta das iniciativas de ensino para adultos.
Como consequência, o número de pessoas inscritas nos programas de alfabetização caiu significativamente:
De cerca de 40 mil alfabetizandos, a província passou para aproximadamente 28 mil participantes.
A redução representa um retrocesso num sector onde a continuidade dos programas é considerada fundamental para alcançar adultos que ficaram fora do sistema formal de ensino.
Dívida de 15 milhões de meticais trava expansão da alfabetização
O sector da Educação reconhece que existe uma dívida acumulada de aproximadamente 15 milhões de meticais, referente aos subsídios dos alfabetizadores dos anos de 2023 e 2024.
Actualmente, a província conta com cerca de 3 mil alfabetizadores, responsáveis por levar conhecimentos básicos de leitura e escrita às comunidades.
No entanto, a falta de regularidade nos pagamentos tem afectado a motivação destes agentes, muitos dos quais trabalham directamente nas zonas rurais onde o acesso à educação formal continua limitado.
Analfabetismo ameaça desenvolvimento das comunidades
O problema do analfabetismo vai além da incapacidade de ler ou escrever.
Especialistas defendem que adultos sem formação básica enfrentam maiores dificuldades para:
- gerir pequenos negócios;
- interpretar documentos;
- acompanhar informações sobre saúde;
- aceder a oportunidades profissionais;
- participar plenamente na vida económica e social.
Numa província onde grande parte da população depende da agricultura familiar e actividades informais, a falta de competências básicas pode limitar o crescimento económico das famílias.
Movimento procura soluções para recuperar programas
Perante este cenário, o Movimento para Advocacia, Sensibilização e Mobilização de Recursos para a Alfabetização reuniu diferentes intervenientes para discutir formas de encontrar financiamento e fortalecer os programas existentes.
A iniciativa procura mobilizar recursos para garantir a continuidade das aulas de alfabetização e reduzir os elevados índices registados na província.
Zambézia enfrenta desafio de quebrar ciclo de exclusão
Os dados revelam que a luta contra o analfabetismo continua longe de estar concluída.
Enquanto milhares de adultos permanecem sem acesso à leitura e escrita, a província precisa encontrar soluções sustentáveis para garantir que os programas de alfabetização não dependam apenas de esforços temporários.
A redução dos níveis de analfabetismo poderá representar um dos passos mais importantes para melhorar a qualidade de vida das comunidades e criar novas oportunidades para a população da Zambézia.
Fonte: Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF) / Sector da Educação / O País