Moçambique enfrenta actualmente uma “encruzilhada crítica”, marcada pela necessidade simultânea de aliviar a pressão sobre as finanças públicas, acelerar o crescimento económico e reforçar a coesão social. O alerta foi lançado por Hugo Costa, responsável de Mercados Financeiros e Tesouraria do Banco Comercial e de Investimentos, durante uma apresentação sobre as perspectivas económicas do país para 2026.
Segundo o especialista, estes três pilares — disciplina fiscal, crescimento económico e estabilidade social — estão interligados e devem avançar em paralelo para garantir um desenvolvimento sustentável. “Não são dimensões independentes”, sublinhou.
Ao analisar o contexto actual, Hugo Costa destacou que Moçambique continua a ser uma economia de dimensão relativamente reduzida, com um Produto Interno Bruto (PIB) estimado entre 22 e 23 mil milhões de dólares, e que tem sido fortemente afectada por choques sucessivos nos últimos anos. Entre os principais factores apontados estão a pandemia da COVID-19, a insurgência armada no norte do país, eventos climáticos extremos e a volatilidade dos preços energéticos no mercado internacional.
Apesar deste cenário adverso, o responsável destacou algumas vantagens estruturais, como o potencial dos megaprojectos de gás natural na bacia do Rovuma, considerados capazes de transformar significativamente a economia nacional. “Cada um destes projectos representa praticamente um PIB”, afirmou, sublinhando o seu impacto potencial

Outros factores positivos incluem a posição geoestratégica do país como corredor logístico regional, o elevado potencial agrícola e energético, bem como a estabilidade do sistema bancário, descrito como “bem capitalizado e com liquidez suficiente” para apoiar a economia. A inflação, por sua vez, encontra-se relativamente controlada, resultado de políticas monetárias activas do Banco de Moçambique.
No entanto, persistem fragilidades estruturais significativas. Hugo Costa apontou o elevado nível de endividamento público, a reduzida margem fiscal, a escassez de divisas e a forte dependência de financiamento externo como factores que limitam o crescimento. A economia nacional continua pouco diversificada, concentrando-se em poucos sectores e commodities, o que reduz a sua capacidade de resistência a choques externos.
A pressão sobre o emprego, impulsionada por uma população jovem em rápido crescimento, bem como a elevada taxa de informalidade, também foram identificadas como desafios críticos para o desenvolvimento económico e social.
No plano do risco soberano, o responsável alertou para o agravamento da percepção internacional sobre o país. Em 2025, a agência de notação financeira Standard & Poor’s classificou a dívida doméstica de Moçambique como “Selective Default”, um indicador de elevado risco que dificulta o acesso ao financiamento e pressiona o sector empresarial.
Os dados mais recentes reforçam o cenário de preocupação. Após quatro trimestres consecutivos de contracção económica, o país registou um crescimento de 4,67% no último trimestre de 2025, insuficiente para evitar uma queda anual de 0,5%. Este desempenho contrasta com os níveis históricos de crescimento entre 8% e 9%, sendo que, nos últimos anos, a média caiu para cerca de 3%.
As perspectivas para 2026 permanecem pouco animadoras. Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional, o crescimento poderá ficar abaixo de 2%, enquanto estimativas do Banco Mundial apontam para níveis próximos de 0,5%. Este cenário poderá resultar em dois anos consecutivos de estagnação económica.
Perante este quadro, o Banco Comercial e de Investimentos defende que a sustentabilidade da dívida pública, a implementação de reformas fiscais profundas e a concretização de grandes projectos estruturantes serão determinantes para o futuro económico do país, num contexto que exige igualmente estabilidade social e reforço da segurança.
Fonte: DE