Cabo Delgado Pode Enfrentar Novo Desafio de Segurança: Ruanda Adverte Sobre Possível Retirada de Tropas
A estabilidade militar na província de Cabo Delgado pode entrar numa nova fase de incerteza. O Governo do Ruanda avisou que poderá retirar o seu contingente militar destacado no norte de Moçambique caso não sejam asseguradas condições de financiamento sustentável para manter as operações de combate ao terrorismo na região.
A declaração foi feita pelo ministro dos Negócios Estrangeiros ruandês, Olivier Nduhungirehe, que deixou claro que a permanência das forças ruandesas em Cabo Delgado depende diretamente do apoio financeiro internacional que tem sustentado a missão desde o início da intervenção.
Segundo o governante, o Ruanda não pretende continuar a suportar sozinho os custos de uma operação militar que, segundo Kigali, tem sido fundamental para estabilizar uma região marcada por anos de ataques insurgentes.
O aviso de Kigali
Numa mensagem publicada nas redes sociais, Nduhungirehe foi direto ao afirmar que a permanência das tropas ruandesas depende de garantias concretas de financiamento.
De acordo com o ministro, a questão não é simplesmente se o Ruanda poderia retirar as tropas, mas sim que essa retirada poderá acontecer inevitavelmente caso o apoio financeiro deixe de existir.
Esta posição surge num momento delicado para a missão internacional em Cabo Delgado, especialmente porque o apoio financeiro da União Europeia está previsto terminar em breve, após cerca de três anos de financiamento.
O papel da União Europeia na operação
Desde 2022, a União Europeia tem apoiado financeiramente a presença das forças ruandesas em Moçambique, com um pacote de aproximadamente 40 milhões de euros destinado a equipamento militar, transporte aéreo e apoio logístico.
Esse apoio foi canalizado através do mecanismo europeu de apoio à paz e tinha como objetivo reforçar a capacidade das tropas destacadas na luta contra os grupos insurgentes.
Contudo, o financiamento tem duração limitada e, até agora, não existem sinais claros de que o bloco europeu pretenda prolongar o programa.
Sanções internacionais aumentam tensão
O cenário tornou-se ainda mais sensível depois de os Estados Unidos aplicarem sanções às Forças de Defesa do Ruanda devido ao conflito na República Democrática do Congo.
Embora essas sanções estejam relacionadas com outro conflito regional, especialistas acreditam que elas aumentam a pressão diplomática sobre Kigali e podem influenciar decisões sobre operações militares no exterior.
A importância das tropas ruandesas em Cabo Delgado
Desde a chegada das forças ruandesas em 2021, a situação de segurança em várias áreas de Cabo Delgado registou melhorias significativas.
A presença militar ajudou a recuperar algumas localidades que estavam sob controlo insurgente e permitiu que milhares de deslocados internos começassem gradualmente a regressar às suas comunidades.
Além disso, as tropas desempenham um papel central na proteção de infraestruturas estratégicas ligadas à exploração de gás natural na região.
Entre esses projetos destaca-se o megaprojeto de gás natural liquefeito liderado pela multinacional francesa TotalEnergies, considerado um dos maiores investimentos energéticos em África.
Segurança e investimentos bilionários

O projeto de gás natural em Cabo Delgado tem potencial para transformar a economia moçambicana, mas depende fortemente da estabilidade da região.
A construção da infraestrutura chegou a ser suspensa durante vários anos devido aos ataques insurgentes, sendo retomada apenas recentemente após melhorias na segurança.
Empresas internacionais têm acompanhado com atenção a evolução da situação, uma vez que qualquer deterioração do ambiente de segurança pode comprometer investimentos avaliados em milhares de milhões de dólares.
A reação do Governo moçambicano
Em Maputo, o porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, reconheceu que o anúncio do fim do financiamento europeu foi recebido com preocupação pelas autoridades moçambicanas.
Segundo o responsável, o Executivo está a procurar alternativas para garantir a continuidade das operações militares e evitar qualquer impacto negativo na luta contra o terrorismo.
O Governo considera que a cooperação com o Ruanda tem sido fundamental para reforçar a capacidade das forças de segurança no combate à insurgência.
Uma guerra que já dura anos
A província de Cabo Delgado enfrenta uma rebelião armada desde 2017, com ataques atribuídos a grupos ligados ao autoproclamado Estado Islâmico.
O conflito já provocou milhares de mortes e obrigou centenas de milhares de pessoas a abandonar as suas casas.
Apesar dos avanços registados nos últimos anos, analistas alertam que a situação continua frágil e que qualquer mudança no equilíbrio militar pode alterar o rumo da luta contra os insurgentes.
O que pode acontecer agora?
A eventual retirada das tropas ruandesas levanta preocupações sobre o futuro da segurança na região.
Caso não seja encontrado um novo mecanismo de financiamento ou um acordo internacional que garanta a continuidade da missão, Moçambique poderá enfrentar o desafio de reforçar ainda mais as suas próprias forças de defesa.
Ao mesmo tempo, parceiros internacionais acompanham atentamente os próximos desenvolvimentos, conscientes de que a estabilidade de Cabo Delgado não é apenas uma questão nacional, mas também estratégica para toda a região da África Austral. (Produção: Silvia , João e Paula nhampossa)
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