Wilfried Nancy enfrenta um início desastroso no comando do Celtic, acumulando dois recordes indesejáveis, mudanças táticas confusas e a crescente desconfiança dos torcedores. Às vésperas da final da Premier Sports Cup, o treinador chega fragilizado, enquanto o St. Mirren enxerga uma oportunidade histórica.
Wilfried Nancy ainda mal começou a sua trajetória no Celtic e já descobriu, de forma dura e acelerada, porque o cargo de treinador em Glasgow é considerado um dos mais implacáveis do futebol europeu. Em apenas duas partidas, o francês viu o entusiasmo inicial evaporar-se, a confiança da torcida desabar e a narrativa pública transformar-se em algo que nenhum técnico deseja enfrentar tão cedo: dúvida, desconfiança e um sentimento crescente de que o clube pode ter errado na escolha.
A imagem parece saída de um filme: Stephen Robinson, treinador do St. Mirren, estudando cada movimento do Celtic, observando atentamente enquanto as horas avançam rumo à final da Premier Sports Cup, neste domingo. E, de repente, percebendo aquilo que todos agora veem com uma clareza quase cruel — vulnerabilidade.
Há pouco mais de uma semana, Robinson esperava enfrentar um Celtic firme, motivado e embalado pela gestão disciplinada de Martin O’Neill. Hoje, ele encara um adversário desnorteado, inseguro e envolto numa crise interna que parece ter emergido do nada.
Um início que ninguém imaginava — e que entrou para a história pelos piores motivos
Nancy escolheu mergulhar imediatamente no comando técnico, recusando a ideia de manter a estrutura deixada por O’Neill até janeiro. O que poderia ter sido um gesto de personalidade transformou-se em um problema de enormes proporções.
Contra o Hearts, derrota na estreia. Contra a Roma, um 3–0 constrangedor em pleno Celtic Park, com o estádio esvaziando-se antes do apito final e acompanhando a equipe com vaias difíceis de ignorar.
O francês ganhou, sem pedir, recordes indesejáveis:
- Primeiro treinador da história do Celtic a perder os dois primeiros jogos no comando;
- Segunda vez na história que o clube sofre três golos no primeiro tempo em casa numa partida europeia;
- O golo contra de Liam Scales transformando-se no mais cedo sofrido pelo clube na Europa em mais de dez anos.
São números que constroem uma narrativa pesada, quase simbólica: um técnico que chega e imediatamente vê tudo o que funcionava desmoronar.
Ideias fixas, jogadores desconfortáveis e escolhas que não convenceram ninguém
As críticas não se limitam aos resultados. Elas apontam, sobretudo, para decisões técnicas que dificilmente encontram justificativa em campo.
Nancy forçou esquemas para os quais seu elenco não está preparado: três zagueiros canhotos, extremos deslocados para alas em lados opostos, jogadores adaptados a funções que não dominam.
Yang Hyun-Jun virou ala direito — sem nunca ter demonstrado vocação defensiva.
Sebastian Tounekti foi transformado em ala esquerdo — e falhou.
A equipa perdeu referências, perdeu equilíbrio e, por instantes, pareceu simplesmente não saber onde estava em campo.
O Celtic de Nancy, até aqui, soa mais a um laboratório desesperado do que a um time de elite prestes a disputar uma final.
Um ambiente psicológico abalado e torcedores entre o ceticismo e o medo
Em Glasgow, duas derrotas não são apenas duas derrotas. São alarmes. São julgamentos instantâneos. São narrativas sendo construídas de maneira quase irreversível.
Os torcedores, que há alguns dias estavam confiantes na final da copa, agora veem um cenário bem diferente. A dúvida, até então tímida, virou voz dominante.
A pergunta cresce: será que o Celtic se precipitou ao entregar o projeto a um treinador sem experiência no nível de pressão que o clube exige?
A comparação feita por alguns com Ange Postecoglou não se sustenta. O australiano assumiu um clube em ruínas e teve carta branca para reconstruir. Nancy, ao contrário, recebeu um time vencedor, organizado e funcional — e o desmantelou em questão de dias.
Uma cidade que não perdoa e uma final que pode definir o destino
A pressão é tão grande que, como se diz em Glasgow, o dia do juízo pode chegar em 45 minutos. Russell Martin, no Rangers, foi contestado até antes de estrear oficialmente — e Nancy já sente um clima semelhante.
Para alguns torcedores, a leitura é simples: se John Kennedy, braço direito da velha comissão técnica, ainda estivesse no clube, talvez pudesse ter segurado Nancy, sugerido mais cautela, evitado mudanças tão bruscas. Mas Kennedy se foi com Brendan Rodgers — e com ele foram, talvez, conselhos que hoje fazem falta.
O francês parece preso à sua ideologia. E, no futebol escocês, especialmente no Celtic, ser inflexível sem estar vencendo é garantia de turbulência.
As peças não se encaixam. O sistema não combina com o elenco. A equipa demonstra fragilidade emocional e pouca solidez tática.
Domingo: tudo ou nada
E assim chegamos ao domingo.
Se Callum McGregor levantar o troféu, Nancy respira. Ganha tempo. Ganha confiança. Talvez ganhe paz para trabalhar até janeiro e começar, enfim, a moldar o time ao seu gosto.
Mas se perder…
Uma terceira derrota consecutiva, ainda mais numa final, pode colocá-lo num território perigoso e quase irreversível.
Robinson sabe disso. O St. Mirren sabe disso. E o Celtic, consciente ou não, vai a campo com um peso que não carrega apenas a bola: carrega a reputação de um gigante, a paciência da torcida e o futuro imediato de um treinador que já está sendo julgado, mesmo antes de ter começado realmente.
Nancy pediu tempo. Glasgow não costuma oferecer. Aqui, o relógio sempre anda mais rápido — e a pressão sempre chega antes da estabilidade.
Domingo será decisivo. Não só para o Celtic levantar um troféu, mas para decidir se este comando técnico tem futuro… ou se já nasceu condenado.
a bbc destacou tambem : https://www.bbc.com/sport/football/articles/cm2887zk7r3o
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