Moçambique prepara-se para uma das maiores apostas energéticas da sua história. A futura Hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa poderá exigir até 7 mil milhões de dólares em investimento, criar milhares de empregos durante a construção e, segundo o Governo, gerar cerca de 14 mil milhões de dólares em receitas públicas ao longo da sua vida útil. Mas o verdadeiro impacto do projecto vai muito além desses números.
O rio Zambeze, na província de Tete, poderá transformar-se novamente no centro de uma gigantesca operação energética capaz de alterar o mapa económico de Moçambique.
É ali, cerca de 61 quilómetros a jusante da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, que está projectada a construção da Hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa, uma central com capacidade instalada de 1.500 megawatts (MW).
O projecto ainda não produz um único megawatt, mas já movimenta milhares de milhões de dólares em investimento previsto e poderá tornar-se uma das maiores infra-estruturas energéticas do país.
De acordo com o Governo, a futura barragem poderá gerar aproximadamente 14 mil milhões de dólares em receitas públicas ao longo da sua vida útil.
E há outro número que chama imediatamente a atenção: durante a construção, o empreendimento deverá criar entre 6.000 e 7.000 empregos directos.
7 MIL MILHÕES DE DÓLARES ESTÃO EM JOGO
O projecto não será barato.
As estimativas actualizadas do Executivo colocam o investimento necessário entre 6 e 7 mil milhões de dólares, valor que inclui não apenas a construção da central, mas também a gigantesca infra-estrutura de transporte de energia.
Mphanda Nkuwa deverá ser ligada a Maputo através de uma linha de transporte de alta tensão com aproximadamente 1.300 quilómetros.
Na prática, o projecto pretende fazer algo muito maior do que simplesmente construir uma nova barragem.
A intenção é criar um corredor energético capaz de transportar electricidade produzida em Tete para os grandes centros de consumo no sul do país.
Essa ligação poderá reforçar a segurança energética nacional e, ao mesmo tempo, aumentar a capacidade de Moçambique vender electricidade aos países da região.
TETE PODERÁ PRODUZIR ENERGIA PARA ALIMENTAR O PAÍS
A localização do projecto é estratégica.
Tete já alberga a Hidroeléctrica de Cahora Bassa, uma das maiores fontes de produção eléctrica de Moçambique.
Com Mphanda Nkuwa, o Governo pretende aumentar significativamente a capacidade de geração de energia e criar condições para responder ao crescimento da procura interna.
A linha Tete–Maputo terá aqui um papel decisivo.
Sem uma rede de transporte capaz de levar a energia para as regiões onde ela é necessária, uma grande capacidade de produção no centro do país teria impacto limitado.
Por isso, a linha de aproximadamente 1.300 quilómetros é praticamente tão importante quanto a própria central.
O Governo considera que esta infra-estrutura poderá abastecer os principais centros de consumo nacionais, reforçar a estabilidade do sistema eléctrico e abrir novas possibilidades de exportação.
14 MIL MILHÕES DE DÓLARES: A GRANDE PROMESSA DO PROJECTO
O número mais impressionante apresentado pelo Executivo é a previsão de 14 mil milhões de dólares em receitas públicas durante a vida útil do empreendimento.
Isto significa que o Governo espera que Mphanda Nkuwa não seja apenas uma obra gigantesca de engenharia, mas também uma fonte de receitas de longo prazo para o Estado.
A lógica é transformar a capacidade energética do Zambeze numa fonte permanente de actividade económica.
Mais electricidade pode significar mais indústria.
Mais indústria pode significar mais empregos.
Mais produção pode significar mais exportações.
E mais exportações e actividade económica podem aumentar as receitas públicas.
É precisamente esta cadeia que está por trás da aposta do Executivo.
6.000 A 7.000 EMPREGOS PODEM SURGIR DURANTE AS OBRAS
Antes mesmo de a primeira turbina começar a produzir energia, o projecto poderá provocar um forte impacto no mercado de trabalho.
Segundo o Governo, entre 6.000 e 7.000 postos de trabalho directos poderão ser criados durante a fase de construção.
O impacto, contudo, poderá ser maior quando forem considerados os empregos indirectos associados ao fornecimento de materiais, transporte, construção, alimentação, alojamento, serviços e outras actividades económicas.
Para Tete, o empreendimento poderá representar uma oportunidade para empresas locais entrarem na cadeia de fornecimento de uma das maiores obras de infra-estrutura previstas para Moçambique.
Mas o verdadeiro desafio será garantir que uma parcela relevante desses benefícios permaneça na economia nacional.
A DATA QUE PODE MUDAR TUDO: 2034
O calendário apresentado pelo Governo estabelece uma sequência clara.
A fase de desenvolvimento deverá estar concluída até 2028.
As obras deverão arrancar em 2029.
E a entrada em operação comercial está prevista para 2034.
Isto significa que, caso o calendário seja cumprido, Moçambique poderá começar a receber a produção comercial da nova central dentro de aproximadamente oito anos.
Até lá, o projecto ainda precisa ultrapassar uma das etapas mais importantes: garantir o financiamento necessário para uma obra estimada em até 7 mil milhões de dólares.
DINHEIRO INTERNACIONAL COMEÇA A ENTRAR NA EQUAÇÃO
Segundo o Executivo, Mphanda Nkuwa continua a despertar interesse de instituições financeiras internacionais e parceiros estratégicos.
Esse interesse será fundamental.
Projectos desta dimensão dificilmente podem ser financiados apenas com recursos públicos nacionais.
A estrutura financeira terá de combinar capital privado, financiamento institucional, garantias e outros mecanismos capazes de reduzir os riscos associados ao investimento.
O Governo considera que os avanços registados no desenvolvimento do projecto estão a criar condições para o fecho financeiro e o início das obras.
EDF, TOTALENERGIES E SUMITOMO ESTÃO NO CONSÓRCIO
A estrutura accionista também mostra a dimensão internacional do projecto.
Em Julho de 2025, o Governo autorizou a Electricidade de Moçambique (EDM) e a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) a adquirirem até 15% cada do capital social da futura central.
Os restantes 70% pertencem a um consórcio privado liderado pela francesa EDF, que integra também a francesa TotalEnergies e a japonesa Sumitomo Corporation.
A configuração coloca empresas de grande dimensão internacional directamente ligadas ao desenvolvimento de uma das infra-estruturas energéticas mais ambiciosas de Moçambique.
EDM E HCB PODERÃO TER 30% DO PROJECTO
A possibilidade de EDM e HCB deterem até 15% cada não é apenas uma questão accionista.
Representa uma tentativa de garantir participação nacional directa num empreendimento que poderá movimentar milhares de milhões de dólares durante décadas.
Ao lado do investimento privado internacional, as empresas moçambicanas ligadas ao sector eléctrico poderão participar nos benefícios económicos futuros da central.
A presença da HCB também cria uma ligação estratégica entre duas grandes infra-estruturas hidroeléctricas no rio Zambeze.
A GRANDE OPORTUNIDADE ESTÁ NA INDÚSTRIA
O impacto de Mphanda Nkuwa poderá ser muito maior se a nova electricidade for utilizada para aumentar a produção industrial dentro de Moçambique.
Uma economia que possui mais energia disponível pode atrair investimentos que dependem de fornecimento eléctrico estável.
Indústrias transformadoras, mineração, agro-processamento, centros de dados, logística e outras actividades podem beneficiar de uma rede energética mais robusta.
É por isso que o projecto pode acabar por ter importância muito além do sector eléctrico.
A barragem poderá fornecer uma das matérias-primas invisíveis de qualquer economia moderna: energia suficiente para produzir.
EXPORTAR ELECTRICIDADE PODE ABRIR OUTRO NEGÓCIO
A ambição do Governo não termina no mercado nacional.
A nova capacidade de geração deverá também aumentar o potencial de exportação de electricidade para os mercados da região.
Moçambique já possui experiência neste domínio através da HCB.
Com mais 1.500 MW de capacidade instalada, o país poderá reforçar a sua posição como fornecedor regional de energia.
Isso poderá criar receitas adicionais em moeda estrangeira e fortalecer a integração energética da África Austral.
MAS O PROJECTO TERÁ DE PASSAR PELO TESTE DA EXECUÇÃO
Apesar das promessas gigantescas, Mphanda Nkuwa ainda enfrenta um longo caminho antes de se transformar numa realidade.
A escala financeira é enorme.
O investimento estimado entre 6 e 7 mil milhões de dólares exige uma estrutura de financiamento robusta, previsível e capaz de resistir às mudanças nos mercados internacionais.
Além disso, a construção de uma infra-estrutura desta dimensão exige rigor técnico, ambiental, financeiro e social.
O calendário anunciado pelo Governo será, portanto, um dos primeiros grandes testes.
Se o desenvolvimento terminar em 2028 e as obras começarem efectivamente em 2029, o projecto entrará numa fase completamente diferente.
Se houver novos atrasos, o calendário de 2034 poderá também ficar sob pressão.
O ZAMBEZE VOLTA AO CENTRO DO FUTURO ENERGÉTICO DE MOÇAMBIQUE
Mphanda Nkuwa representa uma aposta de longo prazo na capacidade energética de Moçambique.
O projecto combina uma central de 1.500 MW, uma linha de transporte de aproximadamente 1.300 quilómetros, investimento estimado entre 6 e 7 mil milhões de dólares, milhares de empregos durante a construção e uma previsão de 14 mil milhões de dólares em receitas públicas ao longo da vida útil.
Os números são enormes.
Mas o verdadeiro resultado será medido pela capacidade de transformar electricidade em desenvolvimento.
Se a energia chegar às fábricas, empresas, agricultores e famílias, Mphanda Nkuwa poderá tornar-se muito mais do que uma barragem.
Poderá ser uma plataforma para industrializar Moçambique, aumentar as exportações, reforçar a segurança energética e integrar o país ainda mais profundamente na economia regional.
O projecto tem, por isso, uma promessa gigantesca — mas também uma responsabilidade igualmente enorme.
O Governo já colocou 2034 como horizonte para a primeira energia comercial. Até lá, Moçambique terá de transformar um projecto de milhares de milhões de dólares numa das maiores apostas concretas para mudar a sua economia.
Fonte: Lusa /
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