O Governo moçambicano sinalizou que o caso das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) está longe de terminar. O Ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, afirmou que mais detenções poderão ocorrer nos próximos dias ou semanas, no âmbito das investigações relacionadas com suspeitas de desvio de fundos, corrupção e gestão danosa na companhia aérea estatal.
A declaração foi feita durante uma entrevista concedida à Rádio Moçambique, no programa “Cartas na Mesa”, onde o governante apontou diretamente para relatórios de auditoria forense realizados em 2025 como base para o avanço do processo criminal. Matlombe deixou claro que os documentos recolhidos trazem evidências de práticas puníveis associadas a gestões anteriores e que o Estado pretende ir até ao fim.
Segundo o ministro, as auditorias não revelaram apenas irregularidades administrativas. Revelaram um padrão que, na prática, sugere a existência de um sistema de drenagem de recursos através de contratos e pagamentos cuja contrapartida nunca foi executada. “São várias empresas que encontramos, muitas delas que nunca prestaram serviços”, afirmou, acrescentando que caberá ao Ministério Público agir para proteger o património do Estado.
O pronunciamento do ministro reforça um ponto crítico: o caso não se limita a indivíduos isolados. As investigações apontam para uma teia mais ampla envolvendo empresas que, alegadamente, receberam valores significativos sem apresentar prestação real, o que coloca em causa não apenas a integridade da gestão interna da LAM, mas também os mecanismos de contratação e fiscalização usados ao longo dos anos.
A promessa de novas detenções surge num momento em que o Governo tenta reposicionar a LAM como empresa viável. O administrador executivo do Instituto de Gestão das Participações do Estado (IGEPE), Raimundo Matule, explicou que as detenções fazem parte de um processo maior de reestruturação com horizonte até 2032, estruturado em três etapas: emergência, estabilização e, por fim, desenvolvimento e expansão. O objetivo, segundo Matule, é tirar a companhia do colapso financeiro e devolver credibilidade ao setor da aviação nacional, num plano que poderá levar anos para produzir resultados visíveis.
O caso ganhou maior visibilidade depois das primeiras detenções registadas a 26 de Fevereiro, conduzidas pelo Gabinete Central de Combate à Corrupção (GCCC). Entre os detidos está João Carlos Pó Jorge, ex-director geral da LAM, acusado de gestão danosa, peculato e corrupção. No mesmo processo foram igualmente detidos Hilário Tembe, antigo director das operações, e Eugénio Mulungo, ligado à tesouraria da empresa. Um outro alto executivo também foi detido, mas a sua identidade não foi revelada pelas autoridades, alimentando suspeitas sobre a extensão real do caso.
Nos bastidores, cresce a perceção de que a LAM pode estar a tornar-se um dos maiores exemplos recentes de colapso institucional associado a contratos opacos e uso indevido de fundos públicos. A insistência do ministro em prometer novas detenções sugere que os relatórios forenses podem conter mais nomes e mais empresas do que o público imagina.
O cenário agora coloca uma questão inevitável: até que ponto o processo de reestruturação conseguirá avançar sem que as investigações exponham ainda mais danos internos? A resposta poderá determinar não apenas o futuro da LAM, mas também a credibilidade do Estado na luta contra a corrupção em empresas públicas estratégicas. (Vozafricano)
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