O Governo de Transição da Guiné-Bissau assegurou que mantém ativa a cooperação técnica com o Banco Mundial, contrariando informações que apontavam para um eventual corte nas relações institucionais após o golpe de Estado militar de 26 de novembro de 2025.
Durante o balanço dos primeiros 100 dias de governação, o primeiro-ministro de transição, Ilídio Vieira Té, afirmou que não existe abandono por parte da instituição financeira internacional, mas sim um processo de “monitorização e avaliação normal” da situação política e económica do país.
Suspensão não significa rutura
Em janeiro, o Banco Mundial anunciou a suspensão temporária de desembolsos e novos financiamentos, justificando a decisão com a necessidade de acompanhar a evolução do contexto político após a tomada de poder pelos militares. A medida, segundo fontes da própria instituição, enquadra-se nos protocolos aplicáveis a situações de alteração da ordem constitucional.
No entanto, o chefe do Executivo guineense sublinhou que a cooperação técnica continua ativa e que os canais institucionais permanecem abertos. “Não há abandono da Guiné-Bissau. Existe diálogo e acompanhamento técnico”, reforçou.
A posição do Governo surge num momento sensível, em que o país enfrenta pressão externa e necessidade urgente de estabilidade macroeconómica.
FMI mantém avaliação e acordo técnico em curso
Paralelamente, o Governo destacou avanços nas relações com o Fundo Monetário Internacional, que recentemente concluiu uma avaliação positiva do desempenho macroeconómico da Guiné-Bissau.
Segundo as autoridades, foi alcançado um acordo técnico preliminar no âmbito do programa de ajustamento financeiro, que poderá permitir um desembolso de 3,3 milhões de dólares, sujeito ainda à aprovação formal da direção do FMI. O montante, embora modesto, é visto como sinal de confiança internacional na gestão financeira do período de transição.
Especialistas regionais consideram que a manutenção desse apoio é crucial para evitar deterioração cambial, pressão inflacionária e atraso no pagamento de compromissos externos.
Pressão regional e isolamento diplomático
Desde o golpe militar, a Guiné-Bissau foi suspensa de organizações estratégicas como a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, a União Africana e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, todas exigindo o regresso à normalidade constitucional.
A suspensão dessas organizações limita o acesso a mecanismos regionais de financiamento, cooperação técnica e integração económica, aumentando a dependência de instituições multilaterais financeiras como o Banco Mundial e o FMI.
A recente tensão diplomática com Timor-Leste — que assumiu temporariamente a presidência da CPLP — agravou o ambiente político externo, levando inclusive ao cancelamento de uma missão de bons ofícios prevista para fevereiro.
Desafios estruturais e horizonte económico
Ilídio Vieira Té reconheceu que o Governo de Transição não pode resolver em 100 dias “problemas estruturais acumulados ao longo de décadas”, mas afirmou que já definiu um rumo claro: restaurar credibilidade externa, reforçar disciplina orçamental e reaproximar o país dos seus parceiros estratégicos.
Economistas ouvidos no espaço lusófono africano apontam que a estabilidade institucional será determinante para desbloquear financiamentos suspensos e recuperar investimentos. A continuidade da assistência técnica do Banco Mundial, mesmo em regime de monitorização, é vista como um sinal de que a Guiné-Bissau ainda mantém portas abertas no sistema financeiro internacional.
Num contexto africano marcado por transições políticas sensíveis e crescente escrutínio internacional, a capacidade do Governo guineense de garantir previsibilidade económica poderá definir o ritmo da sua reintegração plena nas estruturas multilaterais.
Fonte: Conforme avançou a Forbes África Lusófona, as declarações foram feitas no âmbito do balanço dos primeiros 100 dias do Governo de Transição.