Moçambique poderá receber até 6 mil milhões de dólares em financiamento nos próximos cinco anos, num dos maiores compromissos multilaterais anunciados para o país na última década. O pacote foi confirmado pelo Banco Mundial e deverá ser disponibilizado maioritariamente em condições concessionais, reforçando a capacidade de investimento público num momento crítico para a economia nacional.
A informação foi avançada pela Reuters, que cita Fily Sissoko, director da instituição para Moçambique e outros países do Índico. Segundo o responsável, cerca de 3 mil milhões de dólares já constam no portefólio bancário activo, sendo esperada a mobilização de montantes adicionais até perfazer o total anunciado.
O Que Está em Jogo
O novo ciclo de financiamento enquadra-se no Quadro de Parceria 2026-2031 e surge num contexto de desafios fiscais, pressão da dívida pública e necessidade urgente de acelerar o crescimento inclusivo.
Na semana anterior ao anúncio, o Fundo Monetário Internacional alertou para a deterioração da dinâmica da dívida moçambicana, apesar de sinais positivos como a retoma prevista de projectos estratégicos de gás natural e a saída do país da lista cinzenta do Grupo de Ação Financeira Internacional.
Este novo pacote financeiro é visto como um sinal de confiança internacional, mas também como um teste à capacidade de execução e governação económica.
450 Milhões USD Já Aprovados
Em Janeiro, o Banco Mundial aprovou um financiamento imediato de 450 milhões de dólares destinado a reforçar a resiliência económica, promover crescimento inclusivo e gerar emprego juvenil.
Segundo o Ministério das Finanças, o montante será disponibilizado através da Janela para Prevenção e Resiliência, com foco em:
- Mitigação de impactos de cheias e eventos climáticos extremos
- Apoio a comunidades vulneráveis
- Criação de oportunidades para jovens e mulheres
- Reforço institucional e melhoria do ambiente de negócios
O programa estratégico aposta na transformação económica sustentada, procurando tirar partido dos recursos naturais e da localização geográfica estratégica de Moçambique na África Austral e no corredor do Oceano Índico.
Juventude no Centro da Estratégia
Com mais de metade da população abaixo dos 25 anos, Moçambique enfrenta um dos maiores desafios demográficos da região. O financiamento deverá priorizar sectores com potencial de absorção de mão-de-obra, incluindo infra-estruturas, energia, agricultura moderna e cadeias logísticas ligadas ao gás natural.
Especialistas defendem que o verdadeiro impacto do pacote dependerá menos do volume financeiro e mais da capacidade de canalizar os recursos para projectos com retorno económico sustentável.
Crescimento ou Novo Ciclo de Endividamento?
Embora as condições concessionais reduzam o custo do financiamento, economistas alertam que a acumulação de dívida exige disciplina fiscal e transparência. A articulação entre o Banco Mundial e o FMI será determinante para garantir que o reforço do investimento não comprometa a estabilidade macroeconómica.
Ao mesmo tempo, a retoma dos megaprojectos de gás natural poderá alterar significativamente o perfil fiscal do país na próxima década, criando espaço para consolidação orçamental — caso as receitas sejam bem geridas.
O Próximo Capítulo
O compromisso de 6 mil milhões de dólares posiciona Moçambique como um dos principais receptores de financiamento multilateral na África Subsariana nos próximos anos. A questão central passa agora da promessa para a execução.
Se bem implementado, o pacote poderá acelerar a transformação económica, fortalecer a resiliência climática e reduzir o desemprego juvenil. Caso contrário, corre o risco de ampliar vulnerabilidades fiscais num ambiente global cada vez mais volátil.
O ciclo 2026-2031 será, assim, determinante para definir se o país converte apoio internacional em crescimento sustentável — ou se continuará preso a ciclos recorrentes de dependência financeira. (vozafricano)