O Executivo moçambicano está a avançar com um pacote de investimento de cerca de 10 milhões de dólares para a construção de dois centros logísticos estratégicos em Topuito (Nampula) e Balama (Cabo Delgado), numa aposta que procura redesenhar a ligação entre pequenas empresas locais e a grande indústria extractiva no norte do país.
A iniciativa é financiada pelo Banco Mundial no quadro do projecto Conecta Negócios, um programa que, segundo fontes envolvidas, não se limita a infra-estruturas — pretende alterar a forma como o sector privado participa na economia real.
Infra-estruturas pensadas para reduzir custos invisíveis
Durante anos, um dos maiores obstáculos para as pequenas e médias empresas em Moçambique não foi apenas produzir, mas conseguir colocar os seus produtos no mercado.
É precisamente nesse ponto que o projecto intervém.
Segundo o coordenador do programa, Pedro Paulino, o foco está em reduzir os chamados “custos de transação”, que incluem transporte, armazenamento, processamento e acesso a mercados.
“Estamos a criar condições para que o sector privado não perca competitividade depois da produção”, explicou o responsável, sublinhando que a ausência destas infra-estruturas tem limitado o crescimento das PMEs.
Topuito: o centro que pode mudar a dinâmica com a indústria mineira
A maior fatia do investimento — cerca de 7 milhões de dólares — será aplicada em Topuito, numa zona directamente ligada à actividade da Kenmare Resources, responsável pela exploração de areias pesadas.
Mas há um detalhe estratégico: o projecto surge numa fase em que o Governo negocia um novo modelo de concessão com a mineradora, procurando aumentar a sua participação nas receitas.
Neste contexto, o centro logístico não será apenas uma estrutura de apoio —
será uma peça de integração económica.
O plano inclui:
- parque eco-industrial
- espaço dedicado a pequenas empresas
- centro de formação e incubação
O objectivo é claro: inserir empresas nacionais na cadeia de fornecimento da indústria extractiva, algo que historicamente tem sido limitado.
Balama: logística ao serviço do grafite
Em Cabo Delgado, o foco desloca-se para Balama, uma das regiões mais relevantes na produção de grafite — um mineral estratégico na indústria global, especialmente para baterias e tecnologias emergentes.
O centro logístico previsto terá funções críticas:
- processamento
- conservação
- preparação para exportação
Segundo fontes do projecto, a infra-estrutura deverá melhorar significativamente o escoamento da produção, reduzindo perdas e aumentando o valor agregado antes da chegada aos mercados.
Mais do que dois centros: uma rede em construção
Embora Topuito e Balama sejam os pontos mais avançados, o programa tem uma abrangência nacional.
Em Tete, está em preparação um mercado integrado voltado para:
- pescado
- produtos agrícolas
- processamento alimentar
Já em Mocuba, um centro de negócios encontra-se em funcionamento, reunindo serviços administrativos e fiscais num único espaço para facilitar a vida das empresas.
A lógica é descentralizar serviços e aproximar o Estado do sector produtivo.
Reforma silenciosa no ambiente de investimento
Paralelamente às obras físicas, o projecto atua numa frente menos visível, mas igualmente determinante:
- revisão da legislação de investimento
- fortalecimento das zonas económicas especiais
- expansão dos serviços de balcão único
Estas medidas visam tornar o país mais competitivo e atrativo para investimento privado, num momento em que Moçambique procura consolidar a sua posição em sectores estratégicos.
Entre ambição e execução
Apesar do avanço técnico — com áreas já identificadas e licenças ambientais concluídas — o projecto ainda aguarda o lançamento dos concursos públicos para o início das obras.
É neste ponto que muitos projectos semelhantes enfrentam atrasos.
A diferença, segundo analistas, estará na capacidade de execução e na continuidade do financiamento.
Conclusão: oportunidade real ou promessa recorrente?
O investimento anunciado coloca novamente no centro do debate uma questão antiga:
como transformar recursos naturais em benefícios concretos para a economia local?
Se bem implementados, os centros logísticos podem:
- reduzir desigualdades regionais
- fortalecer empresas nacionais
- gerar emprego
Mas, como já aconteceu no passado, o sucesso dependerá menos do plano e mais da sua concretização no terreno.
O norte do país aguarda — desta vez com expectativas elevadas. (AIM)