O anúncio de um novo pacote financeiro para recuperar estradas destruídas pelas cheias levanta uma questão inevitável: será desta que o país responde com rapidez a um problema que se repete todos os anos?
O Governo moçambicano prevê mobilizar cerca de 33 milhões de dólares para intervenções consideradas urgentes em infraestruturas rodoviárias afectadas pelas chuvas intensas registadas no início do ano. A informação foi avançada pelo ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, que admite, no entanto, que as obras só deverão arrancar após o fim da época chuvosa — uma espera que, na prática, prolonga o sofrimento de comunidades já isoladas.
No terreno, a realidade é mais dura do que os anúncios. Dados da Administração Nacional de Estradas revelam um cenário de colapso parcial da rede viária, com múltiplos troços cortados ou severamente degradados, sobretudo no sul do país. Na província de Gaza, uma das mais atingidas, distritos inteiros voltaram a ficar desligados, numa repetição de crises anteriores que expõem fragilidades estruturais.
Estradas estratégicas como a R856 e a N221 cederam à pressão das águas, interrompendo ligações vitais entre zonas produtivas e centros urbanos. O isolamento do distrito de Guijá não é apenas um problema logístico — é um travão directo à circulação de bens, acesso a serviços básicos e resposta de emergência. Noutras zonas, como na EN220, a circulação tornou-se um privilégio restrito a viaturas com características específicas, deixando a maioria da população sem alternativas viáveis.
A situação repete-se noutras regiões. Em Inhambane, há registo de cortes e erosões que ameaçam interromper completamente algumas vias. Em Tete, certos troços só permitem passagem a veículos com tracção reforçada. Já no norte, em Niassa, estradas nacionais como a N13 enfrentam níveis críticos de degradação, com rios a ultrapassarem plataformas e a destruírem desvios provisórios.
Apesar dos alertas recorrentes e dos danos previsíveis durante a época chuvosa, a resposta continua a seguir um padrão reativo. Especialistas têm questionado a ausência de soluções duradouras, como a elevação de plataformas, melhoria de drenagens e reforço estrutural das vias mais vulneráveis — medidas que poderiam reduzir drasticamente os prejuízos anuais.
Enquanto isso, a recomendação oficial limita-se a apelos de precaução aos automobilistas, incluindo restrições de peso em estradas de terra e aconselhamento para planeamento de viagens. Para quem depende dessas vias para sobreviver, essas orientações pouco resolvem.
O investimento anunciado pode aliviar parte dos danos imediatos, mas dificilmente responderá à raiz do problema. Num país onde as chuvas já não são exceção, mas regra, a reconstrução sem estratégia continua a custar caro — e a deixar milhares de moçambicanos literalmente sem caminho. (Vozafricano)