Durante décadas, a economia de Angola esteve profundamente dependente do petróleo. O ouro negro chegou a representar a maior parte das exportações e das receitas públicas do país. Porém, uma transformação silenciosa começa a ganhar força: a indústria transformadora está a emergir como um dos pilares da economia não petrolífera.
O ministro da Indústria e Comércio, Rui Miguêns, afirmou recentemente que este sector começa a consolidar-se como um dos motores do crescimento económico fora do petróleo, apontando dados que mostram uma aceleração significativa da actividade industrial nos últimos anos.
Mas por trás destes números existe uma realidade mais complexa que revela tanto avanços importantes quanto desafios estruturais profundos.
O crescimento que começa a mudar a economia
Nos últimos anos, Angola tem procurado reduzir a sua dependência do petróleo através de políticas de diversificação económica. Essa estratégia começa a mostrar alguns resultados.
Dados oficiais indicam que o sector não petrolífero passou a representar cerca de 80% da economia angolana, enquanto o petróleo responde por cerca de 19% do Produto Interno Bruto (PIB).
Em 2025, a economia do país registou crescimento, impulsionado principalmente pelas actividades fora do sector petrolífero, que expandiram cerca de 7,34%, enquanto o sector do petróleo sofreu contracção.
Entre as áreas que mais contribuíram para esta expansão está precisamente a indústria transformadora, que registou um crescimento próximo de 16,5% em determinados períodos recentes, tornando-se um dos sectores industriais mais dinâmicos do país.
Este desempenho reforça a ideia defendida pelo governo: a economia angolana começa lentamente a diversificar-se.
Agro-indústria lidera a transformação produtiva
Dentro da indústria transformadora, o maior destaque vai para a agro-indústria, particularmente os segmentos ligados à produção de alimentos e bebidas.
Este sector tem registado crescimento expressivo porque responde a um problema estrutural da economia angolana: a forte dependência de importações alimentares.
Durante décadas, Angola importou grande parte dos produtos alimentares consumidos internamente. O crescimento da indústria alimentar representa, portanto, uma tentativa de reduzir essa dependência externa e fortalecer o mercado interno.
A expansão da transformação de produtos agrícolas também abre novas oportunidades para produtores rurais e cadeias de abastecimento locais.
Metalurgia e indústria pesada começam a ganhar espaço
Outro sinal importante de mudança é o crescimento gradual da indústria metalúrgica e da produção de bens intermédios.
Estas actividades estão ligadas à transformação de metais, produção de materiais industriais e fabricação de equipamentos, sectores considerados estratégicos para o desenvolvimento de uma base industrial mais sólida.
Ao mesmo tempo, investimentos recentes em infra-estruturas industriais, zonas económicas especiais e novas fábricas começam a surgir no país.
Um exemplo recente foi a inauguração da primeira unidade operacional de montagem automóvel doméstica, com capacidade para produzir milhares de veículos por ano, numa tentativa de reduzir importações e estimular a produção local.
A realidade que os números nem sempre mostram
Apesar dos avanços, especialistas alertam que a transformação económica de Angola ainda enfrenta obstáculos importantes.
Embora a economia esteja a diversificar-se, o petróleo continua a desempenhar um papel dominante. O sector ainda representa mais de 90% das exportações do país e continua a ser a principal fonte de receitas fiscais.
Além disso, a própria indústria transformadora ainda tem peso relativamente limitado na economia. Estudos indicam que a produção industrial representa apenas cerca de 7,5% do PIB e emprega uma pequena parcela da força de trabalho nacional.
Isto significa que o crescimento observado, embora positivo, ainda está longe de transformar completamente a estrutura económica do país.
O verdadeiro desafio da diversificação
Para que a indústria transformadora se torne realmente um motor económico duradouro, Angola terá de enfrentar desafios estruturais conhecidos:
- melhoria do ambiente de negócios
- maior acesso a financiamento para empresas
- infra-estruturas logísticas e energéticas mais eficientes
- combate à burocracia e corrupção
- formação de mão-de-obra qualificada
Organizações internacionais, incluindo o Fundo Monetário Internacional, têm insistido que reformas institucionais e melhoria da governação económica serão essenciais para garantir crescimento sustentável e diversificado.
Um país numa encruzilhada económica
Angola encontra-se num momento decisivo da sua história económica. O declínio gradual da produção petrolífera e as oscilações dos preços internacionais obrigam o país a reinventar o seu modelo de crescimento.
A indústria transformadora surge hoje como uma das apostas mais importantes para esse futuro.
Se os investimentos industriais continuarem a crescer e as reformas estruturais forem aprofundadas, Angola poderá finalmente transformar a diversificação económica — durante anos apenas um discurso político — num verdadeiro projecto de desenvolvimento nacional.
Caso contrário, o país corre o risco de continuar preso a um modelo económico dependente de recursos naturais, vulnerável às crises internacionais e incapaz de gerar emprego suficiente para a sua população jovem e em rápido crescimento. (vozafricana)