O Governo do Japão emitiu esta terça-feira o aviso mais firme dos últimos meses sobre a possibilidade de intervir diretamente no mercado cambial, ao considerar que a recente desvalorização do iene já não reflete os fundamentos económicos do país. A posição foi assumida pela ministra das Finanças, Satsuki Katayama, num momento de crescente pressão sobre a moeda japonesa e de apreensão nos mercados financeiros.
Falando a jornalistas em Tóquio, Katayama afirmou que o Executivo dispõe de “carta branca” para agir contra movimentos considerados excessivos e especulativos no mercado de câmbio, sublinhando que a recente fraqueza do iene ultrapassa limites aceitáveis. Segundo a governante, a queda acentuada da moeda após a última conferência de imprensa do governador do Banco do Japão (BOJ), Kazuo Ueda, não encontra justificação nos indicadores económicos reais.
Iene reage a alerta governamental
As declarações tiveram impacto imediato nos mercados. O iene valorizou-se para cerca de 156 unidades por dólar norte-americano, afastando-se ligeiramente da mínima de quase 11 meses, registada na semana passada, quando chegou a tocar os 157,78 ienes por dólar. Ainda assim, a moeda continua sob forte pressão.
Katayama reiterou que o Japão está alinhado com os Estados Unidos quanto ao princípio de que as taxas de câmbio devem ser determinadas pelo mercado, mas lembrou que ambos os países concordam que a intervenção é legítima em situações de volatilidade extrema. Esse entendimento foi reafirmado num acordo bilateral firmado em setembro.
Histórico de intervenções preocupa mercados
O Japão não intervém no mercado cambial desde julho de 2024, quando comprou ienes após a moeda atingir o nível mais fraco em 38 anos, aproximando-se de 162 por dólar. Analistas acreditam que um novo movimento desse tipo pode ocorrer caso o dólar volte a ultrapassar a barreira dos 158 ienes.
Especialistas alertam que a contínua desvalorização do iene tem efeitos diretos no custo de vida da população, ao encarecer as importações e alimentar pressões inflacionárias, sobretudo nos preços de alimentos e energia. Este cenário tornou-se politicamente sensível para o governo japonês, que enfrenta o desafio de equilibrar crescimento económico e estabilidade social.
Política monetária não convence investidores
Apesar de o Banco do Japão ter elevado recentemente a taxa de juros para 0,75% — o nível mais alto em três décadas — a decisão não foi suficiente para fortalecer o iene de forma sustentada. Os mercados interpretaram as declarações de Kazuo Ueda como um sinal de que o banco central não pretende acelerar o aperto monetário no curto prazo.
Segundo analistas financeiros, essa postura cautelosa do BOJ, aliada às políticas fiscais expansionistas do governo, contribui para manter a moeda japonesa sob pressão. A expectativa de um orçamento público mais expansivo no próximo ano fiscal reforça a perceção de que será necessário um aperto monetário mais agressivo para corrigir a fraqueza cambial.
Governo sob pressão para agir
O contraste entre o discurso mais duro adotado agora e as declarações moderadas feitas pela ministra no início da semana evidencia a crescente preocupação das autoridades com a velocidade da desvalorização do iene. Para o mercado, o tom adotado por Katayama representa um sinal claro de que o Japão está disposto a agir, caso a instabilidade persista.
Com o iene próximo de níveis historicamente frágeis e a inflação ainda a preocupar as famílias japonesas, uma eventual intervenção cambial deixou de ser uma hipótese distante e passou a ser encarada como uma opção concreta no arsenal económico do governo.
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