Moçambique pode estar à beira de uma transformação estratégica no sector mineiro. Investidores dos Emirados Árabes Unidos manifestaram interesse em instalar uma refinaria de ouro com tecnologia moderna e certificação internacional, numa iniciativa que pode alterar profundamente a forma como o país explora e valoriza os seus recursos.
A proposta foi apresentada em Maputo durante um encontro entre o ministro da Economia, Basílio Muhate, e representantes da Câmara de Comércio Árabe-Moçambicana, sinalizando um novo capítulo na cooperação económica entre Moçambique e os Emirados.
Muito além da mineração
O projecto da refinaria não se limita à simples transformação do ouro. Trata-se de um investimento com potencial para industrializar a cadeia de valor, permitindo que o país deixe de exportar matéria-prima bruta e passe a produzir ouro refinado com maior valor no mercado internacional.
Além do sector extractivo, os investidores árabes demonstraram interesse em áreas estratégicas como agricultura, indústria alimentar e pescas — sectores considerados essenciais para a diversificação económica e geração de emprego em Moçambique.
O contexto: queda na produção e pressão por reformas
O anúncio surge num momento sensível. Em 2025, a produção de ouro no país registou uma queda de 17%, atingindo cerca de 1349 toneladas — abaixo das metas definidas pelo Governo.
A principal razão foi a paralisação das actividades mineiras na província de Manica, uma das regiões mais produtivas, sobretudo no segmento de mineração artesanal e de pequena escala.
A decisão de suspender licenças, tomada em setembro de 2025, visou responder a preocupações ambientais e à necessidade de reorganizar o sector. Uma comissão interministerial foi criada para rever o modelo de licenciamento, reforçar a fiscalização e mitigar os impactos ambientais da exploração.
Refinaria pode ser resposta estratégica
Neste cenário, a instalação de uma refinaria surge como uma resposta estratégica a vários desafios:
- Redução da dependência de exportação de ouro bruto
- Aumento do valor agregado das exportações
- Maior controlo sobre a cadeia produtiva
- Potencial formalização do sector artesanal
Além disso, a certificação internacional prevista no projecto pode ajudar Moçambique a posicionar-se melhor nos mercados globais, onde a rastreabilidade e a sustentabilidade ganham cada vez mais importância.
Meta ambiciosa para 2026
Apesar da queda recente, o Governo mantém uma visão otimista. Para 2026, a meta é atingir 1723 toneladas de produção, o que representaria um novo recorde nacional.
Esse crescimento deverá ser impulsionado pelo desempenho das principais empresas do sector e por investimentos na expansão da capacidade produtiva — cenário no qual a refinaria pode desempenhar um papel decisivo.
O que está realmente em jogo
Mais do que um investimento isolado, o interesse dos Emirados Árabes reflete uma disputa global crescente por recursos estratégicos em África.
Para Moçambique, a questão central não é apenas atrair investimento, mas garantir que esses projectos tragam benefícios reais para a economia, incluindo emprego, transferência de tecnologia e desenvolvimento sustentável.
Se avançar, a refinaria poderá marcar uma viragem histórica: transformar o país de exportador de recursos brutos em produtor com capacidade industrial e influência no mercado internacional do ouro.
O desafio agora será transformar essa intenção em realidade — sem repetir erros do passado.