Moçambique voltou a enfrentar um forte peso na factura alimentar externa. Dados divulgados pelo Banco de Moçambique revelam que o país gastou 439 milhões de dólares na importação de arroz e trigo apenas nos primeiros nove meses de 2025, num cenário que expõe a elevada dependência externa para garantir alimentos básicos. Mas por trás destes números surge agora um novo debate económico: a decisão do Governo de centralizar a importação destes cereais poderá alterar profundamente o mercado e gerar impactos para empresas, empregos e preços no país.
Dependência alimentar continua elevada
De acordo com o relatório estatístico divulgado pelo Banco de Moçambique, os gastos com importação de arroz e trigo atingiram 439 milhões de dólares entre Janeiro e Setembro de 2025.
Desse total:
- 255,9 milhões de dólares foram destinados à compra de arroz
- 183,1 milhões de dólares foram utilizados para importar trigo
Os dados mostram que a dependência do país em relação ao arroz importado tem vindo a crescer nos últimos anos.
Segundo o banco central:
- em 2022, as importações de arroz totalizaram 288,4 milhões de dólares
- em 2023, o valor subiu para 317,7 milhões de dólares
- em 2024, atingiu 441 milhões de dólares
Este aumento reflecte a dificuldade da produção nacional em acompanhar a procura interna.
Governo quer centralizar importações
Face a esta realidade, o Governo decidiu avançar com uma nova estratégia para controlar o mercado de cereais.
Em Janeiro, através de um decreto ministerial, o Executivo anunciou que as importações de arroz e trigo passarão a ser feitas exclusivamente pelo Instituto de Cereais de Moçambique.
Segundo as autoridades, a medida pretende:
- travar a saída ilegal de divisas
- garantir o abastecimento do mercado interno
- estabilizar os preços de produtos considerados essenciais
A decisão, porém, abriu um novo debate entre o Governo e o sector privado.
Sector privado alerta para riscos económicos
A Confederação das Associações Económicas de Moçambique manifestou preocupação com o impacto da medida.
Numa carta enviada ao Ministério da Economia, a organização alertou que a centralização das importações pode colocar em risco investimentos privados superiores a 500 milhões de dólares.
Segundo a entidade empresarial, a decisão poderá afectar:
- mais de 10 mil empregos directos
- cerca de 20 mil empregos indirectos
A CTA também advertiu que empresas privadas já possuem contratos internacionais firmados, que podem ser comprometidos caso o novo modelo avance sem mecanismos de transição.
Produção nacional ainda insuficiente
Outro ponto levantado pelo sector privado prende-se com a capacidade limitada de produção nacional.
Actualmente, Moçambique produz cerca de 80 mil toneladas de arroz por ano, um volume muito inferior ao necessário para satisfazer o consumo interno.
Para substituir totalmente as importações, especialistas indicam que o país precisaria de:
- 300 mil hectares de áreas agrícolas adequadas
- sistemas modernos de regadio
- cerca de 30 unidades de processamento industrial
Essas infra-estruturas permitiriam alcançar uma capacidade de 1,5 milhão de toneladas, suficiente para responder à procura nacional estimada em cerca de 700 mil toneladas por ano.
Dependência total no caso do trigo
No caso do trigo, a situação é ainda mais sensível.
Moçambique não possui produção significativa deste cereal, o que significa que o país depende quase totalmente das importações para abastecer o mercado.
Especialistas alertam que qualquer interrupção na cadeia de importação pode provocar:
- escassez de farinha e pão
- aumento dos preços dos alimentos
- impacto directo no custo de vida das famílias
Debate sobre modelo económico continua
Além das preocupações económicas, a CTA argumenta que a decisão de atribuir exclusividade ao Instituto de Cereais de Moçambique foi tomada sem consulta prévia ao sector privado, o que, segundo a entidade, contraria práticas de concertação económica.
A organização também questiona a capacidade operacional e o enquadramento jurídico da instituição para assumir o controlo de um mercado que movimenta centenas de milhões de dólares por ano.
O debate coloca em evidência um dilema central para a economia moçambicana: como reduzir a dependência alimentar externa sem comprometer investimentos privados e estabilidade do mercado.
Nos próximos meses, analistas acreditam que as decisões tomadas neste sector poderão ter impacto directo nos preços dos alimentos, na confiança dos investidores e no equilíbrio económico do país. (Produção: João e paula Nhampossa)