Moçambique terminou o ano de 2025 sob forte pressão financeira, com o Estado a acumular atrasos significativos no pagamento da dívida pública interna, num cenário que volta a levantar preocupações sobre a sustentabilidade das finanças públicas.
De acordo com um relatório do Ministério das Finanças de Moçambique, o país registou cerca de 4,7 mil milhões de meticais (equivalente a mais de 63 milhões de euros) em atrasos no serviço da dívida, resultado direto de dificuldades de tesouraria ao longo do ano.
Falta de liquidez e receitas abaixo do esperado
O documento aponta que os atrasos foram provocados, sobretudo, por limitações na mobilização de receitas, num contexto marcado por desaceleração económica e pressão crescente sobre a liquidez do Tesouro.
Do valor total em atraso, cerca de 2,5 mil milhões de meticais correspondem ao pagamento de capital, enquanto aproximadamente 2,1 mil milhões dizem respeito a juros — um sinal claro do peso financeiro acumulado.
Apesar da divulgação dos números, o relatório não esclarece se parte desses montantes já foi regularizada, mantendo dúvidas sobre a real dimensão do incumprimento.
Peso da dívida aumenta nas contas públicas
Os dados revelam ainda que, só no último trimestre de 2025, o país gastou cerca de 107 mil milhões de meticais (1,4 mil milhões de euros) com o serviço da dívida pública, refletindo o crescimento contínuo dos encargos do Estado.
Ao longo do ano, o stock da dívida subiu de aproximadamente 1,07 bilião para 1,09 bilião de meticais, um aumento de 2,16%, impulsionado principalmente pelo recurso ao financiamento interno.
Governo tenta aliviar pressão com novas estratégias
Perante o cenário, o Executivo avançou com medidas para reduzir a pressão imediata sobre o pagamento da dívida, incluindo a realização de leilões de troca de Obrigações do Tesouro.
Essas operações permitiram alongar prazos de pagamento e aliviar encargos de curto prazo em mais de 30 mil milhões de meticais, segundo o relatório oficial. Ainda assim, analistas alertam que a estratégia apenas adia o problema, sem resolver as fragilidades estruturais.
FMI mantém alerta sobre risco de insolvência
A situação já tinha sido sinalizada pelo Fundo Monetário Internacional, que, na sua última avaliação, classificou a dívida externa de Moçambique como estando em alto risco de insolvência, colocando a dívida global do país numa posição considerada crítica.
A instituição alertou ainda para riscos adicionais, incluindo a contratação de dívida em condições desfavoráveis e possíveis atrasos na exploração de megaprojetos de gás, considerados essenciais para reforçar as receitas do Estado.
Um futuro ainda incerto
Com atrasos acumulados, aumento dos encargos e pressão sobre as finanças públicas, Moçambique enfrenta um cenário desafiante.
A necessidade de uma estratégia mais robusta e coordenada para gerir a dívida torna-se cada vez mais urgente, numa altura em que o equilíbrio económico do país depende não apenas de reformas internas, mas também da confiança dos parceiros internacionais e da retoma de grandes projetos estruturantes. (Vozafricano)