Uma jovem de 18 anos, identificada como Ryan Al Najjar, foi assassinada de forma brutal nos Países Baixos, num crime que chocou a comunidade local e reacendeu o debate internacional sobre violência de honra, abuso familiar e direitos das mulheres. O homicídio, alegadamente cometido pelo pai e pelos dois irmãos da vítima, está agora em julgamento e é tratado pelas autoridades como um dos casos mais graves de violência baseada em costumes registados no país nos últimos anos.
Desaparecimento e descoberta do corpo
Ryan desapareceu a 22 de maio de 2024, depois de ter sido vista pela última vez na região de Roterdão. A família relatou o desaparecimento às autoridades, mas desde o início surgiram inconsistências nos depoimentos.
Seis dias depois, a 28 de maio, o corpo da jovem foi encontrado num pântano no norte dos Países Baixos, numa área isolada e de difícil acesso.
A forma como o corpo foi descoberto — amarrado, amordaçado e submerso — levou imediatamente a polícia a considerar a hipótese de homicídio com forte planeamento e intenção homicida. Segundo a acusação, o método utilizado revela “um grau significativo de crueldade e premeditação”.
Motivo: comportamentos considerados “ocidentais”
A investigação apontou para um padrão de controlo extremo dentro da família. Ryan era alvo constante de críticas e represálias por:
- não usar hijab de forma permanente;
- interagir com rapazes da escola e do bairro;
- utilizar redes sociais com frequência;
- publicar vídeos no TikTok, onde aparecia maquilhada e sem véu.
O vídeo que terá desencadeado o ataque final mostrava Ryan a dançar e a usar maquilhagem. Para os familiares, segundo o Ministério Público, a publicação representava uma “desonra insuportável”, algo que, na visão deles, ameaçava o prestígio da família perante a comunidade.
Participação dos familiares: viagem planeada e execução
As investigações revelaram que os irmãos de Ryan a foram buscar a Roterdão sob o pretexto de a levar para casa. Em vez disso, conduziram-na a uma zona rural isolada, onde o pai, Khaled, já os aguardava.
Segundo peritos, vestígios de ADN do pai encontrados debaixo das unhas da vítima indicam que Ryan lutou até ao último momento, tentando defender-se.
As autoridades encontraram ainda mensagens interceptadas entre os irmãos, trocadas dias antes do crime, que sugerem preparativos e discussões sobre “resolver o problema” que, na visão deles, Ryan representava.
Fuga para a Síria e julgamento em curso
Após o homicídio, o pai fugiu para a Síria, onde permanece em paradeiro parcialmente conhecido. Em declarações à imprensa holandesa, assumiu ter participado no crime, mas tentou isentar os filhos de culpa.
Contudo, a polícia dispõe de provas sólidas que ligam todos os três familiares ao assassinato.
Os irmãos de Ryan enfrentam agora acusações que podem resultar em até 20 anos de prisão, enquanto o pai, julgado à revelia, poderá ser condenado a 25 anos — a pena máxima possível no país para este tipo de crime.
A defesa dos acusados apresentará as suas alegações na próxima segunda-feira, e a leitura da sentença está agendada para 5 de janeiro de 2026.
Repercussão e debate nacional
O caso levantou fortes debates nos Países Baixos sobre:
- a protecção de jovens mulheres provenientes de famílias conservadoras;
- a eficácia dos mecanismos de denúncia de violência doméstica;
- o risco de crimes de honra em comunidades migrantes;
- a responsabilidade das instituições em identificar sinais de abuso cultural extremo.
Organizações de direitos humanos destacaram que Ryan já teria mencionado, a colegas e contactos próximos, que sofria pressão familiar intensa para se comportar “de forma tradicional”. No entanto, não há registo de que a jovem tenha formalizado qualquer denúncia.
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