O BRICS continua sem conseguir apresentar uma posição conjunta sobre o conflito no Médio Oriente, num momento em que a guerra envolvendo o Irão, os Estados Unidos e Israel aprofunda tensões globais e coloca à prova a relevância diplomática do bloco.
Quase um mês após o início dos ataques aéreos liderados por Washington e Telavive, que desencadearam uma crise energética e militar com impacto global, o grupo de economias emergentes permanece dividido e incapaz de emitir uma declaração unificada. Nos bastidores, esta paralisia revela algo mais profundo: interesses estratégicos incompatíveis entre os próprios membros.
A actual presidência rotativa, liderada pela Índia, encontra-se sob crescente pressão para desbloquear um consenso que até agora parece inalcançável. Nova Deli tenta equilibrar relações delicadas com aliados ocidentais e parceiros estratégicos dentro do próprio bloco, numa equação diplomática cada vez mais complexa.
Fontes internacionais indicam que o Irão tem insistido junto da liderança indiana para que o BRICS condene formalmente as operações militares conduzidas pelos Estados Unidos e por Israel. No entanto, essa proposta enfrenta resistência de países como os Emirados Árabes Unidos, também membros do bloco, e da Arábia Saudita, que mantém aproximação ao grupo e interesses diretos no conflito regional.
Ao mesmo tempo, potências como a China e a Rússia têm demonstrado uma posição mais favorável a Teerão, ainda que sem forçar uma rutura aberta dentro do bloco. Este jogo de equilíbrios tem impedido qualquer declaração conjunta.
Analistas apontam que, desde a expansão do BRICS para incluir novos membros do Médio Oriente, o bloco tornou-se mais influente em termos geopolíticos — mas também mais fragmentado. Países agora pertencentes ao mesmo grupo encontram-se, na prática, em lados opostos de um dos conflitos mais sensíveis da atualidade.
Relatórios indicam que pelo menos três versões de comunicados foram discutidas internamente, mas acabaram rejeitadas devido às divergências. A dificuldade em alinhar posições levanta dúvidas sobre a capacidade do bloco em agir como uma voz unificada no cenário internacional.
Esta hesitação contrasta com momentos anteriores, em que o grupo conseguiu reagir de forma mais rápida a crises internacionais. Hoje, o silêncio coletivo começa a ser interpretado como sinal de fragilidade política.
Especialistas alertam que o BRICS corre o risco de perder relevância caso não consiga responder a temas centrais da agenda global. A incapacidade de agir num conflito desta magnitude pode comprometer a sua ambição de se afirmar como alternativa às estruturas tradicionais lideradas pelo Ocidente.
Enquanto isso, o conflito no Médio Oriente continua a escalar, com impactos diretos nos mercados energéticos e na estabilidade global. O Presidente norte-americano, Donald Trump, tem procurado abrir canais diplomáticos para reduzir as tensões, embora sem avanços concretos até ao momento.
No centro desta crise está a Índia, cuja liderança temporária do bloco expõe os limites da diplomacia multilateral quando interesses nacionais entram em choque. A forma como Nova Deli irá gerir este impasse poderá definir não apenas o futuro imediato do BRICS, mas também o seu papel no novo equilíbrio de poder global.
Fonte: Bloomberg