Por anos, muitos em Moçambique souberam que a maior fábrica do país enfrentava problemas, mas quase ninguém entendeu completamente por que motivo uma gigante industrial como a fundição de alumínio Mozal está prestes a fechar. O cenário que se desenha vai muito além de simples dificuldades empresariais — é uma história profunda sobre energia, economia, negociações políticas, interesses nacionais e regionais, e uma luta pela sobrevivência industrial. Aqui está um relato detalhado, com todos os elementos que muitos não ouviram antes.

O que está a acontecer com a Mozal?
Mozal Aluminium, a maior fábrica industrial de Moçambique, anunciada para suspender operações a partir de 15 de março de 2026, deve entrar em regime de care and maintenance — uma forma técnica de “pausar” atividade — porque não conseguiu assegurar um contrato de eletricidade que lhe permita operar de maneira economicamente sustentável.
Não se trata de um “fecho simples”, mas de uma trajetória longa de negociações frustradas, em que os principais atores — governo moçambicano, a empresa controladora australiana South32, a concessionária hidrelétrica estatal e a empresa energética sul‑africana Eskom — não chegaram a um acordo de fornecimento de energia a um preço viável para a produção de alumínio.
O contexto histórico de Cahora Bassa e África do Sul
Poucos conhecem a história completa da energia de Cahora Bassa:
- Nos anos 1960–1970, o governo colonial de Portugal, que controlava Moçambique, fez um acordo com a empresa elétrica sul‑africana Eskom para exportar eletricidade.
- Portugal construiu a barragem principalmente para abastecer a indústria da África do Sul, que precisava de energia confiável.
Antes da independência, o dinheiro da venda ia quase totalmente para Portugal e empresas financiadoras. Moçambique, como colônia, não controlava essas receitas.

Depois de 1975, com a independência, Moçambique assumiu gradualmente o controlo da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, e hoje o Estado moçambicano é o principal acionista. O dinheiro das vendas de energia agora beneficia o país através de dividendos, impostos e investimentos.
Por que energia é o problema central?
A produção de alumínio é extremamente intensiva em eletricidade — Mozal precisa de cerca de 950 megawatts de energia 24 horas por dia para levar a cabo os processos que transformam alumina em alumínio metálico.
Historicamente essa eletricidade tem vindo principalmente de:
• Hidroeléctrica de Cahora Bassa, a mega‑barragem no rio Zambeze.
• Quando essa fonte não cobria tudo, a energia suplementar vinha pela rede sul‑africana, através da Eskom.
A questão é que o contrato atual de fornecimento de energia termina em março de 2026, e nos últimos anos a Mozal tem tentado negociar um novo acordo com os provedores, incluindo o governo e a elétrica estatal. Mas as partes não conseguiram concordar sobre preço, quantidade garantida e sustentabilidade do fornecimento.
Negociações que se arrastam há anos
A luta por um acordo energético vem de longe:
• A South32 afirmou publicamente que tem debatido preços e condições durante cerca de seis anos, mas sem sucesso.
• O governo insiste que o preço oferecido pela empresa é tão baixo que não cobre os custos da produção de energia, especialmente considerando que o contrato anterior foi feito há décadas em condições muito diferentes.
A diferença que parece pequena — uns 0,3 centavos de dólar por quilowatt‑hora — pode equivaler a milhões de dólares por ano em energia subsidiada.
O papel da barragem de Cahora Bassa
Nem sempre é claro para o público que a energia não chega diretamente da barragem até à fábrica. A rede elétrica de Moçambique está desenhada de forma que grande parte da energia que poderia beneficiar a indústria muitas vezes é vendida primeiro para o mercado regional, especialmente para a África do Sul.
Além disso, variações sazonais do armazenamento de água no reservatório de Cahora Bassa — agravadas por períodos de seca — tornaram a previsão de fornecimento ainda mais incerta.
O que a South32 diz
O CEO da South32 tem sido direto: a empresa considera as propostas de energia “totalmente insustentáveis” para manter a atividade de Mozal, dado que o custo da eletricidade representa cerca de um terço de todos os custos de produção da fundição.
Ele também comentou que a tecnologia e investimentos necessários para retomar a produção após uma suspensão prolongada são tão intensos que retomá‑la poderia demorar muito tempo — muito mais do que um simples acordo energético.
O impacto para Moçambique
Se a Mozal de facto entrar em pausa operacional, as consequências serão profundas:
• Aproximadamente 4.000 a 5.000 empregos diretamente afetados.
• Milhares mais em empresas associadas que dependem da atividade da fundição.
• A Mozal representa cerca de 3% a 4% do Produto Interno Bruto de Moçambique, além de contribuir com grande parte das exportações e receitas industriais.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que a suspensão de operações da Mozal representa um sério risco económico ao país, dado o peso que a fábrica tem sobre a economia nacional.
Algo que poucos mencionam: o lado estratégico da energia
Há um elemento menos falado publicamente, mas muito importante: a dependência da infraestrutura de energia regional. Embora Cahora Bassa seja uma grande barragem, grande parte da energia disponível para uso industrial passa através da rede do seu vizinho, a África do Sul — e as negociações com a Eskom têm sido um ponto difícil por causa dos preços e da forma como contratos e linhas de transmissão foram historicamente estabelecidos.
O que muitos não sabem (mas faz diferença)
• Nos últimos anos, a Mozal reduziu a compra de matérias‑primas sabendo que poderia suspender operações em março, o que mostra que a decisão não foi de um dia para outro, mas fruto de anos de incertezas.
• A empresa está a considerar custos de cerca de US$ 60 milhões só para colocar a fábrica em regime de manutenção, além de cerca de US$ 5 milhões anuais para mantê‑la assim.
• A própria South32 já contabilizou uma redução no valor da Mozal em centenas de milhões de dólares perante a perspectiva de um futuro incerto.
E agora?
O futuro imediato depende de negociações de última hora entre o governo, a concessionária de energia e a South32, mas o cenário actual aponta para que, sem um acordo energético que seja financeiramente sustentável para a empresa, a suspensão total das operações se torne inevitável.
Este episódio é mais do que um simples caso de negócios: é a expressão de como decisões sobre energia, contratos e política regional podem moldar o destino industrial de um país inteiro. (Produção: Paula Nhampossa ,João e Silvia José )
Eu estou muito feliz com a informação, visto que por meio a isso iremos descobrir os verdadeiros malucos que se alimentavam com base aquela indústria.
Lamentar os que vão perder emprego, mas se realmente a mesma empresa se afixar na RSA, creio eu que haverá muito recrutamento moçambicano para aquele lugar, devido a experiências, assim quem Sabe, serão valorizado naquele país.
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Viva ilustres a south32 tem uma fundição de alumínio na África de Sul a “Hillside Aluminium”, uma está no modo care and maintenance(por alto custo de energia) e outra está em operação (há suspeita deque o governo local está esteja a subsidiária a energia)
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Como diz o ditado popular: *Tudo para todos ou nada para ninguém*
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Um dos melhores artigos.
Obrigado pela informação.
A Equipe agradece ! volte sempre
O problema aqui é que tudo tem de ser financeiramente sustentável para a Mozal, mas também é necessário que seja financeiramente sustentável para o País e sobretudo para as populações circunvizinhas do projecto que têm sofrido bastante com impacto ambiental da empreitada
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Um cenário complexo, porém pelo descrito acima, não há muitas saídas, senão o fechamento.
Os contratos secretos são sempre assim, só vêm a tona depois de muitos danos causados, como os que este fechamento vão causar.
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