A cobrança de dívidas em África continua a ser um dos maiores entraves ao ambiente de negócios no continente. Um novo relatório internacional revela que vários países africanos estão entre os mais difíceis do mundo para recuperar créditos em atraso, expondo fragilidades profundas nos sistemas legais, financeiros e institucionais.
De acordo com dados divulgados pela Allianz Trade, através do índice global Collection Complexity Score and Rating, África — ao lado do Médio Oriente — figura como uma das regiões mais complexas para credores. A informação foi avançada pela Business Insider Africa, destacando desafios estruturais persistentes.
Um ambiente hostil para credores
O relatório aponta que a combinação de fatores como fraca disciplina de pagamento, longos prazos de recebimento (DSO), lentidão judicial e sistemas de insolvência ineficazes cria um cenário altamente desfavorável para empresas e investidores.
Em muitos casos, entidades públicas e grandes empresas estão entre os principais incumpridores, agravando ainda mais a previsibilidade dos fluxos financeiros no continente.
Este contexto levanta preocupações não apenas para empresas locais, mas também para investidores internacionais que procuram expandir operações em África.
Os países mais difíceis para cobrar dívidas
África do Sul
Considerado o país mais complexo do continente para recuperação de dívidas, apresenta prazos médios de pagamento que chegam a 90 dias — muito acima dos padrões globais.
O sistema judicial enfrenta congestionamento, com processos longos e resultados incertos. Em casos de insolvência, os credores sem garantia raramente conseguem recuperar valores significativos.
Egipto
Apesar de reformas recentes e melhorias legais, os atrasos continuam frequentes, tanto no sector público como no privado.
Embora existam tribunais económicos especializados e mecanismos formais para cobrança, o sucesso depende muitas vezes da capacidade de localizar activos do devedor — um desafio recorrente.
Marrocos
Apresenta atrasos médios entre 90 e 120 dias, com um sistema jurídico frequentemente criticado pela falta de eficiência e transparência.
A execução de decisões judiciais é considerada difícil, tornando o recurso aos tribunais pouco atractivo para credores.
Senegal
Embora os prazos formais indiquem cerca de 30 dias, na prática os pagamentos podem ultrapassar os 60 dias — especialmente em contratos com o sector público.
O país segue o sistema jurídico da OHADA, que traz alguma padronização regional, mas não elimina os atrasos nem a complexidade dos processos.
O impacto real na economia africana
A dificuldade na recuperação de dívidas não é apenas um problema técnico — é um factor que afecta diretamente:
- A confiança dos investidores
- O acesso ao crédito
- O crescimento das empresas
- A estabilidade dos mercados
Num continente onde muitas economias dependem do investimento externo, estas fragilidades tornam-se um obstáculo significativo ao desenvolvimento sustentável.
Um desafio que exige reformas profundas
Os dados reforçam a necessidade de reformas estruturais urgentes, incluindo:
- Modernização dos sistemas judiciais
- Fortalecimento das leis de insolvência
- Maior transparência nos processos
- Promoção de disciplina financeira no sector público
Sem estas mudanças, África continuará a figurar entre as regiões mais desafiantes do mundo para fazer negócios.
E enquanto isso, cobrar uma dívida no continente continua a ser, em muitos casos, uma verdadeira batalha.
Fonte: Business Insider Africa
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