O Presidente da República, Daniel Chapo, iniciou esta quinta-feira uma visita oficial de quatro dias a Addis Abeba, na Etiópia, onde participa na 39.ª Conferência Ordinária dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana (UA), um dos mais importantes fóruns políticos do continente africano.
A deslocação insere-se na estratégia de reforço do posicionamento diplomático de Moçambique nos mecanismos multilaterais africanos, num contexto em que o continente enfrenta desafios estruturais nas áreas de segurança, desenvolvimento sustentável, financiamento climático e gestão de recursos naturais.
Água e saneamento no centro da agenda continental
De acordo com comunicado citado pela Agência de Informação de Moçambique (AIM), a 39.ª Conferência decorre sob o lema: “Garantir a disponibilidade sustentável de água e sistemas de saneamento seguros para alcançar os objectivos da Agenda 2063”.
O tema coloca no centro do debate a segurança hídrica, considerada pilar fundamental para o desenvolvimento económico, a saúde pública e a estabilidade social em África. A gestão sustentável da água assume particular relevância num continente fortemente afectado por alterações climáticas, secas prolongadas, cheias cíclicas e défices estruturais em infra-estruturas de saneamento.
Para Moçambique — país vulnerável a eventos climáticos extremos como ciclones e inundações — a discussão sobre políticas de água e saneamento tem impacto directo nas prioridades nacionais de desenvolvimento.
Participação em outros fóruns estratégicos
Durante a estadia em Addis Abeba, Daniel Chapo participará igualmente na 35.ª Conferência dos Chefes de Estado e de Governo dos Países Membros do Mecanismo Africano de Revisão de Pares (MARP), instrumento voluntário criado no âmbito da União Africana para promover boas práticas de governação política, económica e corporativa entre os Estados membros.
O MARP constitui um dos pilares de monitoria e avaliação de políticas públicas no continente, incentivando reformas estruturais, transparência e fortalecimento institucional.
Além disso, o Chefe de Estado marcará presença na 2.ª Cimeira Itália-África, iniciativa que procura aprofundar a cooperação económica, energética e estratégica entre países africanos e o Governo italiano, num contexto de crescente interesse europeu na parceria com o continente africano.
Delegação presidencial
O Presidente faz-se acompanhar por uma delegação de alto nível, que integra:
- A ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Manuela Lucas;
- O ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, Fernando Rafael;
- O secretário de Estado da Terra e Ambiente, Gustavo Dgedge;
- O embaixador de Moçambique na Etiópia, Nuno Tomás;
- Quadros da Presidência da República e técnicos de diferentes instituições do Estado.
A composição da delegação reflecte a natureza transversal dos temas em agenda, com destaque para diplomacia, recursos hídricos, ambiente e cooperação internacional.
Relações Moçambique–Etiópia: cooperação estratégica em expansão
A visita do Presidente ocorre num momento de reforço das relações bilaterais entre Moçambique e Etiópia, particularmente no domínio da defesa e segurança.
No ano passado, os dois países concordaram em aprofundar a cooperação militar histórica. O ministro da Defesa de Moçambique, Cristóvão Chume, manteve conversações oficiais com a sua homóloga etíope, Aisha Mohamed, em Addis Abeba, à margem da 11.ª Edição de Alto Nível sobre Defesa e Segurança.
Durante esse encontro, Aisha Mohamed destacou os laços históricos entre os dois países e manifestou interesse em expandir a cooperação em áreas estratégicas. Por seu turno, Cristóvão Chume sublinhou o interesse de Moçambique em iniciativas conjuntas nas áreas de:
- Combate ao terrorismo
- Indústria militar
- Formação técnica
- Manutenção de aeronaves
- Cibersegurança
Num contexto em que Moçambique enfrenta desafios de segurança no Norte do país, nomeadamente na província de Cabo Delgado, a cooperação militar e técnica com parceiros africanos assume importância estratégica crescente.
Agenda 2063: visão de longo prazo para África
A 39.ª Conferência da União Africana insere-se no quadro da implementação da Agenda 2063, o plano estratégico de desenvolvimento de longo prazo do continente africano. A iniciativa visa transformar África numa potência global próspera, integrada e pacífica até meados do século XXI.
Entre os objectivos centrais da Agenda 2063 estão:
- Industrialização e transformação económica
- Integração regional e comércio intra-africano
- Boa governação e democracia
- Paz e segurança
- Sustentabilidade ambiental
A discussão sobre água e saneamento está directamente ligada à meta de melhoria da qualidade de vida dos cidadãos africanos, redução de desigualdades e promoção de resiliência climática.
Projecção diplomática de Moçambique
A participação de Moçambique em fóruns continentais de alto nível reforça a sua projecção diplomática e consolida o seu papel activo nos debates estratégicos africanos.
Analistas consideram que encontros desta natureza permitem ao país:
- Defender prioridades nacionais em matérias de desenvolvimento e financiamento climático;
- Reforçar alianças estratégicas regionais;
- Atrair investimento e cooperação técnica;
- Participar activamente na formulação de políticas continentais.
Num cenário internacional caracterizado por transformações geopolíticas e competição por recursos estratégicos, a presença activa em espaços multilaterais como a União Africana é vista como essencial para salvaguardar interesses nacionais e ampliar oportunidades de desenvolvimento.
Perspectivas
A 39.ª Conferência da União Africana deverá produzir declarações políticas e orientações estratégicas que irão moldar a agenda africana nos próximos anos, particularmente no que respeita à segurança hídrica e sustentabilidade ambiental.
Para Moçambique, país altamente vulnerável a choques climáticos e com necessidades significativas de investimento em infra-estruturas de água e saneamento, as decisões adoptadas em Addis Abeba poderão ter impacto directo nas políticas públicas nacionais.
A visita de Daniel Chapo à Etiópia reafirma, assim, o compromisso de Moçambique com a integração africana, a cooperação multilateral e a construção de soluções comuns para desafios partilhados pelo continente. (vozafricano)