Num momento em que Moçambique enfrenta uma escalada silenciosa mas persistente do narcotráfico, marcada pelo aumento da circulação de drogas duras, expansão de rotas internacionais e fortalecimento de redes criminosas com alto grau de sofisticação, o Procurador-Geral da República, Américo Letela, lançou um dos mais duros avisos dos últimos anos: o país não pode continuar a atacar apenas a base da pirâmide criminosa enquanto os verdadeiros líderes permanecem protegidos nos bastidores.
A intervenção ocorreu durante a abertura do VIII Conselho Coordenador do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), em Maputo — um encontro que reúne as principais chefias da investigação criminal, num período em que se discutem estratégias para travar o avanço do crime organizado, cuja influência já se faz sentir nas cidades costeiras, nos portos, nas comunidades vulneráveis e até dentro de instituições estatais.
Segundo Letela, as forças de investigação têm registado avanços na apreensão de carregamentos, no desmantelamento de pequenas fabriquetas e na captura de intermediários. Contudo, esses resultados, embora positivos, não representam o cerne do problema.
“É urgente expor e responsabilizar os verdadeiros beneficiários da cadeia criminosa. Quem lucra com o sangue e o futuro destruído dos nossos jovens? Quem está, de facto, no topo desta engrenagem que mina o Estado e destrói famílias?”, questionou o PGR, num discurso firme que ecoou como um alerta e um ultimato.
Letela sublinhou que as redes de narcotráfico que operam no país dispõem de protecções políticas, esquemas de corrupção institucional e mecanismos de infiltração económica que tornam difícil alcançar os seus financiadores e decisores, muitas vezes escondidos atrás de empresas de fachada, conexões internacionais e operações clandestinas bem estruturadas.
Exigência de investigações mais profundas
Dirigindo-se directamente às chefias do SERNIC, o PGR defendeu uma mudança de paradigma: investigações mais técnicas, mais profundas e menos superficiais, com foco na arquitectura financeira do crime.
“Não basta deter correios e vendedores. É preciso desmontar as redes que os sustentam. O país exige resultados concretos, não apenas estatísticas”, afirmou.
Letela insistiu na necessidade de reforçar o trabalho de inteligência, melhorar os mecanismos de cooperação internacional e aumentar a transparência dentro das próprias instituições envolvidas no combate ao crime.
Estado de Direito em jogo
Para o PGR, responsabilizar os verdadeiros líderes do narcotráfico é mais que uma questão de segurança: é um teste à credibilidade das instituições e ao futuro do Estado de Direito em Moçambique.
“Só quando os verdadeiros criminosos enfrentarem a justiça — e não apenas os pequenos intermediários — é que estaremos a proteger o país e a garantir que a lei é igual para todos.”
O discurso de Letela coloca nova pressão sobre o SERNIC e outras entidades investigativas, apontando para um combate mais estratégico, menos reactivo e mais focado nos centros de decisão do narcotráfico.
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