A aprovação, nos Estados Unidos, da primeira versão em comprimido de um medicamento amplamente usado para a perda de peso está a agitar o sector da saúde global e a levantar questões profundas sobre desigualdade no acesso a tratamentos inovadores. A decisão da agência reguladora norte-americana abre caminho para uma nova fase no combate à obesidade, uma doença silenciosa que cresce também no continente africano.
O fármaco, desenvolvido pela multinacional farmacêutica Novo Nordisk, passa agora a ser administrado por via oral, abandonando a dependência de injecções regulares. A empresa defende que a nova formulação mantém a eficácia clínica já conhecida, ao mesmo tempo que simplifica o uso diário e reduz barreiras logísticas, como a necessidade de refrigeração — um desafio comum em muitos países de baixo rendimento.
Especialistas consideram que esta geração de medicamentos, baseada na acção do hormônio GLP-1, representa uma viragem no tratamento do excesso de peso e da diabetes. Inicialmente criados para controlar a glicemia, estes fármacos passaram a ser utilizados para reduzir o apetite e favorecer a perda de peso, tornando-se rapidamente populares nos mercados ocidentais.
No entanto, enquanto a inovação avança no Norte global, África continua a enfrentar limitações severas. Em várias regiões do continente, a obesidade cresce lado a lado com a pobreza, dietas pouco saudáveis e sistemas de saúde frágeis. O alto custo destes medicamentos levanta dúvidas sobre quando — e se — populações africanas terão acesso real a estas soluções consideradas “revolucionárias”.
A Organização Mundial da Saúde já reconheceu o potencial dos medicamentos GLP-1 como ferramenta importante contra a obesidade, uma condição que afecta mais de mil milhões de pessoas no mundo. Ainda assim, analistas alertam que, sem políticas globais de preços justos e inclusão dos países em desenvolvimento, a inovação corre o risco de aprofundar desigualdades históricas na saúde.
A aprovação da pílula nos EUA é um marco científico, mas o verdadeiro teste será garantir que os benefícios desta nova era terapêutica não fiquem restritos a poucos, deixando África mais uma vez à margem dos avanços da medicina moderna.