Quatro anos após assumir o poder por meio de um golpe de Estado, o general Mamadi Doumbouya prepara-se para dar o passo final na sua trajetória política: transformar-se oficialmente em presidente eleito da Guiné. As eleições presidenciais marcadas para 28 de dezembro de 2025 surgem como o culminar de um processo controverso, marcado por reformas económicas profundas, controlo estratégico do setor mineiro e o progressivo enfraquecimento da oposição política.
Doumbouya, antigo comandante das forças especiais, chegou ao poder em setembro de 2021 ao derrubar o então presidente Alpha Condé, cuja tentativa de um terceiro mandato havia provocado protestos em massa e instabilidade social. Na época, o golpe foi recebido com apoio significativo de parte da população, cansada de décadas de governação marcada por corrupção e desigualdade.
Desde então, o líder militar governou através de um regime de transição que prometia devolver rapidamente o poder aos civis — promessa que acabou por ser sucessivamente adiada.
Estabilidade relativa e aposta forte no setor mineiro
Ao contrário de vários países vizinhos do Sahel, mergulhados em ciclos de golpes e violência jihadista, a Guiné manteve-se relativamente estável sob a liderança de Doumbouya. Analistas apontam reformas económicas e a atração de novos investimentos como fatores-chave para essa estabilidade, sobretudo no setor mineiro, pilar central da economia guineense.
O país detém as maiores reservas de bauxita do mundo e alberga o gigantesco depósito de minério de ferro de Simandou, considerado um dos mais ricos ainda inexplorados a nível global. Em novembro, o governo lançou oficialmente um ambicioso projeto de exploração em Simandou, apresentado como símbolo de soberania económica e desenvolvimento nacional.
Seguindo a tendência de outros regimes militares da região, como no Mali, Burkina Faso e Níger, Doumbouya reforçou o controlo estatal sobre os recursos naturais. Um dos atos mais emblemáticos foi a revogação da licença da Guinea Alumina Corporation, subsidiária do grupo EGA, cujos ativos passaram para mãos do Estado após um conflito relacionado com investimentos industriais.
Eleição contestada e oposição fragilizada
A candidatura de Doumbouya representa uma rutura clara com os compromissos assumidos após o golpe. A carta constitucional inicial proibia expressamente membros da junta militar de concorrerem às eleições. Contudo, uma nova Constituição, aprovada em referendo em setembro, eliminou essas restrições, abrindo caminho à sua candidatura.
Críticos consideram que o processo eleitoral ocorre num ambiente desigual. Várias figuras-chave da oposição estão fora da corrida: Cellou Dalein Diallo, principal líder opositor, vive no exílio após enfrentar acusações de corrupção; o ex-presidente Alpha Condé, também exilado, foi excluído devido a um novo limite máximo de idade fixado em 85 anos.
Além disso, organizações da sociedade civil denunciam restrições à liberdade de imprensa, proibição de manifestações públicas e crescente pressão sobre o sistema judicial. Segundo analistas, a Suprema Corte terá sido influenciada para barrar candidaturas indesejadas ao regime.
Comunidade internacional dividida
O avanço de Doumbouya coloca as potências ocidentais perante um dilema delicado. Por um lado, a denúncia de retrocessos democráticos pode empurrar a Guiné para uma aproximação maior com a China e outros parceiros estratégicos alternativos. Por outro, a aceitação tácita do processo pode legitimar a permanência de regimes militares no poder através de eleições controladas.
Especialistas alertam ainda para o efeito de contágio regional: uma transição bem-sucedida de Doumbouya, de líder golpista a presidente civil, pode servir de modelo para outros militares africanos que chegaram ao poder pela força.
Um percurso moldado pelo poder militar
Natural da região de Kankan e pertencente à etnia malinke, Doumbouya construiu a sua carreira militar no estrangeiro. Recebeu formação em países como Israel, Senegal, Gabão e França, onde integrou a Legião Estrangeira Francesa. Participou em missões internacionais no Afeganistão, Costa do Marfim, Djibuti e República Centro-Africana, acumulando cerca de 15 anos de experiência militar antes do golpe.
A sua campanha eleitoral assenta em promessas de combate à corrupção, redução da pobreza e investimento em infraestruturas. No entanto, para muitos analistas, a candidatura simboliza sobretudo a consolidação definitiva do poder.
Como resumiu um observador regional, trata-se de uma transformação rara, mas cada vez mais comum no continente: a de um líder militar que chega ao poder pelas armas e tenta legitimá-lo através das urnas.
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