Em San Juan Chamula, no sul do México, a Coca-Cola não é apenas uma bebida. É símbolo religioso, oferenda espiritual, hábito diário e, para muitos, uma sentença silenciosa de doença.
NOTA: “Relatos baseados em investigações jornalísticas, estudos de saúde pública e observações.
Uma cidade dominada por uma marca
San Juan Chamula, uma pequena cidade indígena no estado de Chiapas, ganhou um título perturbador: o lugar mais viciado em Coca-Cola do mundo. Aqui, a bebida está em toda parte — nos cartazes, nas casas, nas ruas, nos rituais religiosos, nos cemitérios e até nos batizados.

Estudos e relatos locais indicam que cada habitante consome, em média, entre 2 a 3 litros de Coca-Cola por dia. Um número chocante, ainda mais quando comparado a muitas grandes cidades do mundo onde esse consumo é visto como excessivo.
Em Chamula, beber Coca-Cola é tão comum quanto beber água. Em alguns casos, é até mais acessível do que água potável.
Da religião ao refrigerante: quando a Coca-Cola se tornou sagrada

O aspecto mais impressionante — e inquietante — dessa história é o papel religioso da bebida. Em Chamula, práticas espirituais misturam tradições maias com elementos do cristianismo, criando rituais únicos.
Durante cerimónias religiosas:
- A Coca-Cola é usada como oferenda espiritual
- Crianças chegam a ser “batizadas” com a bebida
- Acredita-se que o gás ajuda a “expulsar maus espíritos” do corpo
Dentro das igrejas, garrafas de Coca-Cola substituem o vinho, a água benta e até remédios tradicionais.
Aqui, a marca deixou de ser apenas um produto — tornou-se um símbolo de fé.
Crianças criadas com açúcar: um ciclo que começa cedo
Talvez o dado mais alarmante seja este: crianças a partir dos 2 anos de idade já consomem Coca-Cola diariamente, muitas vezes como se fosse leite.
O hábito é cultural, passado de geração em geração. Para muitas famílias, oferecer Coca-Cola é um gesto de carinho, hospitalidade e pertença social.
O problema?
O corpo paga o preço — cedo demais.
O custo invisível: diabetes, obesidade e morte precoce
San Juan Chamula enfrenta uma crise de saúde pública silenciosa:
- Cerca de 40% da população sofre de obesidade
- A taxa de diabetes é uma das mais altas do México
- Muitas mortes ocorrem por complicações ligadas ao consumo excessivo de açúcar
Mesmo assim, o consumo continua a crescer.
A dependência não é apenas física — é cultural, emocional e social.
Marketing agressivo e presença total

Camiões da Coca-Cola circulam constantemente pela cidade. Promoções estão por toda parte. Há garrafas de todos os tamanhos:
- Pequenas
- Latas
- 2 litros
- E até garrafas de 3 litros, raras em outras regiões do país
Esse detalhe faz sentido em um lugar onde beber grandes quantidades é normalizado.
Quadras de basquete, paredes, ruas e espaços públicos exibem o logotipo vermelho. A empresa patrocinou o desporto local como forma de associar a marca à saúde, enquanto vendia um produto rico em açúcar.
Uma contradição evidente.
Até no cemitério: Coca-Cola como oferenda aos mortos

Em Chamula, a presença da bebida não termina com a vida.
Nos cemitérios, é comum encontrar garrafas de Coca-Cola sobre as tumbas. A justificativa é simples e simbólica:
“Era a bebida favorita do falecido.”
Assim, a Coca-Cola torna-se uma oferenda funerária, um gesto de amor e memória.
Até na morte, ela está presente.
Entre fé, tradição e dependência
A história de Chamula levanta uma questão profunda e desconfortável:
até que ponto uma marca pode moldar a cultura, a fé e a saúde de uma comunidade inteira?
O caso não é apenas sobre refrigerante. É sobre:
- Falta de acesso à água potável
- Marketing agressivo em comunidades vulneráveis
- Ausência de educação alimentar
- E o poder silencioso das grandes corporações
Uma reflexão para o mundo
Chamula não é um caso isolado — é um alerta global.
Quando o consumo excessivo se mistura com tradição, fé e identidade, o vício deixa de ser visto como problema.
E enquanto isso, o açúcar continua a correr nas veias de uma cidade inteira.
“Até onde vai a responsabilidade das empresas quando seus produtos moldam culturas inteiras?” (Redação: Vozafricano)