Líder da ANAMOLA denuncia manipulação da taxa de câmbio, mascaramento da inflação real e alerta para uma crise silenciosa de confiança na economia moçambicana
Num momento em que o custo de vida aperta, o dinheiro escasseia e a confiança nas instituições económicas parece cada vez mais frágil, Venâncio Mondlane voltou a agitar o debate público com duras críticas ao Banco de Moçambique (BM). Em declarações divulgadas através de um vídeo nas redes sociais, o líder da ANAMOLA acusa o Banco Central de praticar uma verdadeira “engenharia cambial”, sustentando artificialmente a taxa de câmbio para esconder a inflação real e maquilhar o estado da economia nacional.
Mais do que uma crítica técnica, trata-se de uma denúncia política e social com impacto direto na vida dos cidadãos. Para Mondlane, o país vive hoje uma contradição perigosa: números oficiais que apontam estabilidade e controlo, contrastando com uma realidade quotidiana marcada por preços elevados, escassez de divisas e perda acelerada do poder de compra.
Escassez de divisas: de perceção a realidade incontornável

A falta de moeda estrangeira deixou de ser apenas um alerta de analistas para se tornar um problema concreto para empresários, importadores, viajantes e cidadãos comuns. Segundo Mondlane, o acesso ao dólar e a outras moedas fortes tornou-se um desafio diário, bloqueando operações comerciais, atrasando importações e pressionando ainda mais os preços internos.
O político rejeita a explicação oficial do Banco Central, que atribui a crise a supostas irregularidades dos bancos comerciais.
“Não estamos perante um problema de má conduta bancária. Estamos diante de uma falência de política económica e de uma profunda crise de confiança”, afirma.
Para ele, quando o sistema perde credibilidade, o mercado reage criando mecanismos paralelos de sobrevivência — e isso agrava ainda mais o problema que se pretende esconder.
Um país cada vez menos capaz de gerar divisas

Mondlane aponta um fator central muitas vezes ignorado no discurso oficial: a perda da capacidade real do país gerar divisas. Num ambiente de insegurança crescente, marcado por raptos, sequestros, extorsões e medo generalizado entre empresários, muitos investidores optam por retirar capitais do país ou operar fora do sistema formal.
Este clima de instabilidade não apenas afasta novos investimentos como drena as poucas divisas que ainda entram na economia. O resultado é um círculo vicioso: menos confiança gera menos dólares, menos dólares geram mais pressão sobre o câmbio, e mais pressão leva a mais controlo administrativo.
“Moçambique vive, na prática, com um câmbio fixo”
Uma das acusações mais graves feitas por Venâncio Mondlane diz respeito à forma como o Banco de Moçambique gere a taxa de câmbio. Oficialmente, o dólar mantém-se em torno dos 65 meticais. No mercado paralelo, porém, a realidade é outra: a moeda norte-americana já circula entre 70 e 80 meticais, dependendo da procura e da escassez.
“O dólar não vale 65 meticais. Esse é um número administrativo, não económico”, denuncia.
Para o líder da ANAMOLA, esta divergência revela que o país vive, de facto, sob um regime de câmbio quase fixo, mascarado por um discurso de liberalização. Trata-se, segundo ele, de uma prática herdada de modelos ultrapassados, onde o Estado tenta impor preços que o mercado já não reconhece.
Inflação escondida, pobreza exposta

Ao controlar artificialmente o câmbio, o Banco Central estaria também, na visão de Mondlane, a subestimar deliberadamente a inflação. Como grande parte dos bens essenciais — combustíveis, medicamentos, alimentos e insumos industriais — depende de importações, qualquer desvio cambial reflete-se imediatamente nos preços.
Enquanto os relatórios oficiais falam de inflação “moderada”, as famílias sentem uma realidade bem diferente nos mercados, nas farmácias e nas bombas de combustível. O resultado é um divórcio perigoso entre estatísticas e vida real.
Quando os números não batem com a experiência das pessoas, a credibilidade institucional entra em colapso.
Liquidez travada e economia sufocada
Outro ponto crítico levantado por Mondlane é a política monetária restritiva aplicada pelo Banco de Moçambique. Segundo ele, os bancos comerciais são obrigados a reter grandes volumes de recursos no Banco Central, reduzindo drasticamente a liquidez disponível na economia.
Menos liquidez significa menos crédito, menos investimento, menos produção e menos emprego. É uma economia que anda em marcha lenta, enquanto os custos continuam a subir.
“Isto não é regulação prudente. É um controlo excessivo que estrangula o sistema financeiro e penaliza quem produz”, acusa.
“Ditadura do sistema financeiro”: palavras duras, alerta sério

Na sua análise final, Venâncio Mondlane não suaviza o tom. Classifica o atual modelo como uma “ditadura do sistema financeiro”, onde decisões centralizadas ignoram a lógica do mercado e as necessidades reais da população.
Embora estas críticas não sejam novas, ganham agora maior peso num contexto de crescente pressão social, desemprego urbano, desvalorização silenciosa do rendimento e descrédito nas instituições públicas.
Até quando os números vão contrariar a realidade?
A denúncia deixa uma pergunta incontornável: é sustentável manter uma política cambial desconectada do mercado sem aprofundar a crise económica e social? Entre relatórios técnicos e o dia a dia do cidadão comum, o fosso parece aumentar.
Num país onde a economia é sentida no prato, no transporte e na renda de casa, o debate deixou de ser apenas técnico. Tornou-se político, social e moral.
Afinal, quem ganha com um câmbio artificial — e quem continua a pagar a conta?
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