Os confrontos recentes em Aleppo, segunda maior cidade da Síria, expõem os complexos obstáculos que ainda dificultam a integração das Forças Democráticas Sírias (SDF), lideradas pelos curdos, nas forças armadas sírias. À medida que se aproxima o final de 2025, o prazo definido para a incorporação do grupo ao exército permanece uma fonte de tensão entre os dois lados.
Na segunda-feira, durante uma visita do ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, confrontos eclodiram entre as forças governamentais sírias e as SDF, mas terminaram ainda na noite do mesmo dia após um cessar-fogo temporário. Especialistas apontam que o principal ponto de discórdia é o formato da integração: enquanto Damasco prefere que os combatentes sejam incorporados individualmente, as SDF defendem a manutenção de batalhões existentes com certo grau de autonomia.
Segundo Thomas McGee, pesquisador especializado em Síria no Instituto Universitário Europeu em Florença, “as linhas vermelhas da autoadministração curda e da Turquia/Damasco apresentam uma incompatibilidade notável. Não se vislumbra uma reconciliação fácil.” A situação é ainda mais delicada devido à presença de cerca de 50 mil combatentes das SDF, compostos em grande parte por membros das Unidades de Proteção Popular (YPG), braço militar do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado organização terrorista por Estados Unidos, União Europeia e Turquia.
O acordo histórico assinado em 10 de março entre o novo governo sírio liderado por Ahmed al-Sharaa e as SDF previa a integração completa até o final de 2025. Apesar de reduzir os confrontos diretos, o progresso na implementação do acordo tem sido limitado. Analistas afirmam que o governo sírio poderia ter tomado medidas adicionais de boa fé, como reconhecer feriados culturais curdos ou tratar questões de apatridia que afetam a população, para construir confiança mútua.
A Turquia, por sua vez, manifestou apoio a Damasco e chegou a ameaçar intervenção militar unilateral caso não se chegasse a um acordo, embora especialistas considerem improvável que Ancara queira comprometer negociações recentes com um conflito aberto. O ministro turco Hakan Fidan afirmou que espera resolver a situação por meio do diálogo, sem recorrer novamente a ações militares.
O cenário político e militar na Síria continua delicado, especialmente nas regiões controladas pelas SDF, onde a experiência de quase 14 anos de guerra civil permitiu aos curdos consolidar certa autonomia. Como destacou Robin Yassin-Kassab, escritor sírio, “os curdos conquistaram um espaço de decisão própria que nunca tiveram antes e estão relutantes em abrir mão desse poder”.
Internacionalmente, os Estados Unidos também apoiam a integração das SDF ao governo sírio, mas desejam evitar a criação de uma região semiautônoma que possa enfraquecer a estabilidade e abrir espaço para o ressurgimento do Estado Islâmico. Recentemente, Damasco apresentou proposta de reorganizar as SDF em três divisões principais e brigadas menores, desde que parte da cadeia de comando seja cedida e o território esteja disponível para outras unidades do exército.
Embora o prazo final se aproxime rapidamente, analistas acreditam que a prioridade é a implementação real do acordo, podendo haver uma prorrogação. Até o momento, os confrontos recentes em Aleppo indicam que, embora o cessar-fogo seja em grande parte respeitado, as divergências estruturais permanecem e a perspectiva de integração das SDF nas forças governamentais até o fim do ano continua incerta.
A aljazeera Tambem destacou a materia :https://www.aljazeera.com/features/2025/12/23/clashes-in-aleppo-as-deadline-for-sdfs-integration-into-army-approaches