Uvira, República Democrática do Congo – As esperanças de um fim iminente para o conflito no leste da República Democrática do Congo (RDC) sofreram um duro revés com a retomada da cidade estratégica de Uvira pelo grupo rebelde M23, apesar de um recente acordo de paz mediado pelo Catar e apoiado pelos Estados Unidos.
O avanço do M23 não apenas minou a confiança das comunidades locais, exaustas com quase quatro anos de guerra, como também reacendeu temores de que o conflito possa se espalhar para os países vizinhos, dada a proximidade estratégica da cidade com Ruanda e Burundi.
Uma ofensiva que destrói esperanças
Desde o final de 2021, o M23 – grupo que, segundo Washington e a ONU, recebe apoio de Ruanda – protagoniza ofensivas violentas contra o exército congolês, resultando em mais de 7.000 mortes apenas neste ano. Diversas tentativas de cessar-fogo regionais fracassaram. O acordo de paz assinado em Doha, em novembro, trouxe otimismo temporário, mas a ocupação temporária de Uvira expôs a fragilidade do entendimento e a demora na implementação de suas cláusulas.
“É evidente que não há verdadeira vontade de encerrar o conflito”, afirmou Hubert Masomera, advogado e analista político congolês, em entrevista à Al Jazeera. “Apesar das milhares de mortes e da destruição generalizada, os acordos permanecem no papel, enquanto a população civil é deixada à própria sorte.”
Uvira: ponto estratégico e econômico
Uvira é um importante centro de transporte e comércio no Kivu do Sul. Localizada na fronteira com Ruanda e a apenas 30 quilômetros da capital do Burundi, Bujumbura, a cidade possui relevância estratégica tanto militar quanto econômica. Sua captura temporária pelo M23, seguida de retirada sob pressão diplomática dos EUA, expõe o controle limitado do governo central sobre a região e fortalece a posição do grupo rebelde.
Especialistas destacam que o controle sobre Uvira amplia o domínio territorial do M23 e facilita o acesso à rica região mineral de Katanga. A proximidade com países vizinhos aumenta o risco de escalada regional, com Ruanda e Burundi atentos aos movimentos do grupo e mutuamente acusando-se de apoio a facções rebeldes.
Histórico do conflito
O atual conflito tem raízes profundas na história da região, incluindo o genocídio de Ruanda em 1994, que deslocou milhões para o leste da RDC, criando tensões étnicas duradouras. Desde então, grupos armados e milícias têm surgido, muitos apoiados ou combatidos por países vizinhos. O M23 é uma das últimas manifestações de milícias tutsis, originalmente integradas ao exército congolês, que retomaram armas alegando marginalização e violação de direitos.
Entre 2012 e 2021, o M23 consolidou-se, tomando cidades como Goma e Bukavu, e mantendo uma presença militar significativa no leste da RDC. A insurgência combina estratégias rápidas de ocupação territorial com violência direcionada, incluindo execuções sumárias, ataques a aldeias e deslocamento em massa de civis.
Impacto humanitário
O avanço do M23 sobre Uvira deixou um rastro devastador: pelo menos 400 mortos e cerca de 200 mil deslocados, muitos refugiando-se no Burundi. Relatos de aldeias bombardeadas, violência sexual generalizada e execuções sumárias emergem de sobreviventes e de organizações de ajuda humanitária, como Médicos Sem Fronteiras (MSF).
A situação humanitária é agravada pela infraestrutura precária, limitada presença de organizações internacionais e risco de interrupção de serviços essenciais, incluindo saúde, transporte e abastecimento de alimentos.
Mediação internacional e ceticismo
O Catar e os EUA têm se mobilizado como mediadores, buscando reduzir a violência e implementar mecanismos de monitoramento do cessar-fogo. O acordo de Doha prevê protocolos de troca de prisioneiros e supervisão militar, mas já se mostra frágil diante da escalada em Uvira. Analistas questionam se Washington e Doha possuem meios suficientes para garantir cumprimento das cláusulas ou se o acordo servirá apenas como paliativo temporário.
Historicamente, blocos regionais como a SADC e a Comunidade da África Oriental também tentaram intervir, com tropas enviadas de países como África do Sul, Tanzânia e Quênia, mas sem sucesso duradouro contra a persistência e reorganização do M23.
A retomada de Uvira pelo M23 ilustra a complexidade do conflito na RDC, marcado por rivalidades étnicas, disputas territoriais e interesses regionais. O fracasso do acordo de paz de Doha a poucas semanas de sua assinatura reforça a sensação de déjà-vu entre especialistas e cidadãos. Com a escalada recente, a possibilidade de paz duradoura permanece distante, enquanto milhares de civis enfrentam deslocamento, insegurança e violência contínua, numa região onde a guerra parece não ter fim.
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