No ano em que deveria celebrar meio século de existência como símbolo da comunicação pública em Moçambique, a Rádio Moçambique enfrenta uma das mais graves crises da sua história. A instituição estatal está no centro de denúncias internas que apontam para o alegado desaparecimento de cerca de oito milhões de meticais das suas contas bancárias, num contexto marcado por tensão laboral, colapso financeiro e perda de confiança na liderança.
Segundo informações avançadas por funcionários da casa, o montante terá sido movimentado através de operações bancárias consideradas irregulares, envolvendo contas privadas ligadas a figuras da alta hierarquia. Os trabalhadores indicam que o caso já foi encaminhado às autoridades competentes, incluindo o Tribunal Administrativo e a Procuradoria-Geral da República, numa tentativa de forçar a responsabilização e travar o que classificam como “saque institucionalizado”.
Apesar da realização de uma auditoria interna, os resultados continuam fora do domínio público, alimentando suspeitas e indignação. Para os denunciantes, o silêncio em torno das conclusões da investigação reforça a percepção de impunidade num país onde empresas públicas historicamente sofrem com má governação, interferências políticas e fragilidade nos mecanismos de controlo.
A situação financeira da RM, dizem os funcionários, deteriorou-se ainda mais com o enfraquecimento da área comercial, que durante anos sustentou parte significativa das receitas. Mudanças internas e o fim de incentivos à captação de publicidade terão desmotivado equipas e provocado uma quebra acentuada de entradas financeiras, num mercado mediático já pressionado pela crise económica nacional.
Outros processos controversos são igualmente citados, incluindo aquisições de equipamentos informáticos em que apenas quadros intermédios teriam sido responsabilizados, deixando intacta a estrutura de topo. O clima de revolta intensificou-se quando o pagamento do 13.º salário foi feito de forma parcial, afectando sobretudo trabalhadores de rendimentos baixos, enquanto dirigentes mantiveram benefícios e regalias.
Num país onde a rádio pública continua a ser uma das principais fontes de informação para milhões de cidadãos, especialmente em zonas rurais, os trabalhadores alertam que a degradação interna da RM representa também um risco para o direito à informação e para a credibilidade do Estado.
A mensagem que sai dos corredores da instituição é clara: sem transparência, justiça e uma profunda reestruturação da liderança, a Rádio Moçambique corre o risco de celebrar os seus 50 anos não como património nacional, mas como mais um retrato do fracasso na gestão do bem público em África.