Em Moçambique, o político Venâncio Mondlane reagiu de forma contundente ao primeiro Informe sobre o Estado Geral da Nação apresentado pelo Presidente da República, Daniel Chapo, no passado dia 18 de Dezembro, na Assembleia da República. No centro da discórdia estão as manifestações pós-eleitorais de 2024, classificadas por Chapo como “ilegais, violentas e criminosas”.
Para Mondlane, essa leitura presidencial ignora deliberadamente as causas profundas da instabilidade social e representa uma tentativa clara de responsabilizar os cidadãos por uma crise que, segundo ele, resulta de décadas de má governação conduzida pela FRELIMO.
Falando numa comunicação à Nação, o dirigente político defendeu que os protestos foram uma expressão legítima do descontentamento popular, nascido do agravamento contínuo da pobreza, do desemprego e da exclusão social. “As pessoas não saíram à rua por capricho, mas porque já não encontram respostas nas instituições do Estado”, afirmou.
Mondlane acusou o Executivo de fechar os olhos às causas estruturais da crise social, como o colapso dos serviços públicos, a degradação do sistema de saúde, a precarização do ensino e a falta de oportunidades para a juventude. Para ele, insistir na narrativa de que as manifestações são responsáveis pelo aumento da pobreza é inverter a lógica dos factos e aliviar o Governo das suas responsabilidades.
As declarações do Presidente da República provocaram forte reação em vários sectores da sociedade, sobretudo porque, no seu informe, Daniel Chapo apontou repetidamente os protestos como um dos factores centrais do agravamento das condições económicas do país. Mondlane considera essa posição perigosa, por normalizar a repressão e criminalizar o direito constitucional à manifestação.
Discursando perante apoiantes na província de Inhambane, Mondlane foi ainda mais direto ao afirmar que o Chefe do Estado está a “transferir o peso da crise para o povo”, enquanto o Governo se exime de fazer uma autocrítica séria sobre a condução do país. Na sua visão, a FRELIMO governa há décadas e, por isso, não pode continuar a atribuir os problemas nacionais a factores externos ou a reacções populares.
O político defendeu que Moçambique precisa de um debate honesto sobre governação, justiça social e redistribuição de oportunidades, alertando que ignorar o clamor popular apenas aprofunda a distância entre o Estado e os cidadãos.
Para Mondlane, enquanto o poder político insistir em tratar o descontentamento social como crime, e não como sintoma de falhas profundas, o país continuará preso a ciclos de instabilidade, pobreza e desconfiança institucional.
LEIA TAMBEM AQUI : https://vozafricano.com/sequestros-rendem-milhoes-e-expoem-fragilidade-do-estado-alerta-venancio-mondlane/