Maganja da Costa, Zambézia – Mais de cinco mil pessoas ficaram sem abrigo no distrito de Maganja da Costa, na província da Zambézia, na sequência das fortes inundações provocadas por chuvas intensas que continuam a afectar o centro e norte de Moçambique. As cheias submergiram centenas de residências, destruíram meios de subsistência e colocaram milhares de famílias numa situação de extrema vulnerabilidade social e humanitária.
Entre os afectados encontram-se 936 crianças, muitas delas expostas à fome, ao risco de doenças de origem hídrica e à interrupção do ano lectivo, que se aproxima do início. A situação é particularmente preocupante para menores, idosos e mulheres grávidas, grupos que enfrentam maiores dificuldades de mobilidade e acesso a cuidados básicos num cenário marcado pelo isolamento das comunidades.
De acordo com informações avançadas pelas autoridades locais, grande parte das zonas afectadas permanece inacessível por via terrestre, sendo possível chegar apenas através de canoas, devido à subida significativa do nível das águas. Esta limitação logística tem dificultado a assistência humanitária e atrasado a distribuição de alimentos, tendas, kits de higiene e medicamentos essenciais.
As cheias também provocaram a destruição de campos agrícolas, agravando o risco de insegurança alimentar numa região onde a subsistência depende, em grande medida, da agricultura familiar. Muitas famílias perderam machambas, sementes e ferramentas, o que compromete não apenas o presente, mas também a capacidade de recuperação a médio prazo.
As autoridades provinciais, em coordenação com parceiros humanitários, alertam para a necessidade urgente de uma resposta integrada, com prioridade para os sectores da saúde, água, saneamento e higiene. O receio é que, sem uma intervenção célere, possam surgir surtos de doenças como cólera, diarreias agudas e malária, frequentemente associadas a cenários de cheias prolongadas.
Contexto e opinião
A situação em Maganja da Costa volta a expor a vulnerabilidade estrutural de várias regiões moçambicanas face a fenómenos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e intensos. Apesar de não serem um fenómeno novo, as inundações revelam fragilidades persistentes na planificação territorial, na gestão de riscos e na capacidade de resposta rápida a emergências climáticas.
Num país altamente exposto às mudanças climáticas, episódios como este reforçam a urgência de investimentos consistentes em infraestruturas resilientes, sistemas de alerta precoce eficazes e políticas públicas que integrem a adaptação climática como prioridade nacional. A dependência recorrente de ajuda humanitária, embora necessária em momentos críticos, não pode substituir estratégias estruturais de prevenção e mitigação.
Especialistas defendem que o reforço da cooperação entre autoridades locais, governo central e organizações humanitárias é essencial para optimizar recursos e garantir uma resposta coordenada que vá além do socorro imediato, incluindo a recuperação dos meios de vida e o reassentamento digno das famílias afectadas.
Enquanto as águas não recuam e o acesso permanece limitado, milhares de cidadãos da Maganja da Costa continuam à espera de assistência, num cenário que exige mais do que promessas: exige ação concreta, rápida e sustentável. (paula nhampossa)