Após quase seis anos de detenção e de um processo judicial que expôs um dos maiores escândalos financeiros da história de Moçambique, o antigo ministro das Finanças, Manuel Chang, aproxima-se da liberdade. Informações avançadas pela imprensa indicam que o ex-governante poderá ser libertado pelas autoridades judiciais norte-americanas ainda este mês, com regresso a Moçambique previsto para o início de 2026.
De acordo com dados apurados junto de fontes ligadas à defesa de Chang nos Estados Unidos, a libertação poderá ocorrer antes do final de dezembro, período em que se iniciará o processo formal de deportação. Caso se confirme, o antigo ministro deixará o território norte-americano após vários anos de envolvimento direto num dos processos de corrupção mais mediáticos a nível internacional.
Um caso que atravessou fronteiras e sistemas judiciais
O percurso judicial de Manuel Chang começou em dezembro de 2018, quando foi detido na África do Sul, a pedido das autoridades dos Estados Unidos. A partir daí, o processo transformou-se numa longa disputa jurídica internacional envolvendo Moçambique, Estados Unidos e África do Sul, todos a reivindicarem a extradição do antigo governante.
Após vários recursos e decisões contraditórias, acabou por prevalecer a posição norte-americana, levando à extradição de Chang para os EUA em 2023. Em solo americano, o ex-ministro respondeu em tribunal por alegada participação no esquema financeiro que resultou na contratação de mais de 2 mil milhões de dólares em dívidas ilegais, sem conhecimento do Parlamento e à margem da lei moçambicana.
Julgamento e impacto internacional do escândalo

O julgamento de Manuel Chang nos Estados Unidos trouxe à luz detalhes profundos sobre o funcionamento do esquema das chamadas dívidas ocultas, envolvendo bancos internacionais, empresas de fachada e altos decisores políticos. O caso tornou-se referência global quando se discute corrupção, governação e responsabilidade financeira em países em desenvolvimento.
Embora outros intervenientes tenham sido julgados em diferentes jurisdições, o nome de Manuel Chang consolidou-se como símbolo do envolvimento do Estado moçambicano num processo que teve consequências devastadoras para a economia nacional, provocando cortes no apoio internacional, desvalorização da moeda e impacto direto na vida dos cidadãos.
Silêncio das autoridades moçambicanas
Até ao momento, não há qualquer reação oficial por parte do Governo moçambicano ou do sistema judicial relativamente à possível libertação e ao regresso iminente de Chang ao país. Também não é claro se existem processos judiciais pendentes que possam ser reativados em território nacional ou se há um enquadramento legal preparado para lidar com o seu retorno.
Este silêncio institucional levanta várias interrogações na opinião pública e entre analistas políticos e jurídicos:
- Estará o país preparado para enfrentar novamente este capítulo?
- Haverá responsabilização interna ou o caso ficará encerrado fora das fronteiras nacionais?
Um regresso que pode reacender feridas abertas

A eventual libertação de Manuel Chang não apaga o impacto das dívidas ocultas nem responde às questões fundamentais que continuam por esclarecer:
- Quem tomou, em última instância, as decisões?
- Quem beneficiou política e financeiramente do esquema?
- Porque permanecem impunes várias figuras centrais?
O possível regresso do antigo ministro poderá reacender o debate nacional sobre justiça, memória política e responsabilização, num país que continua a pagar o preço de decisões tomadas em segredo.
O processo de Manuel Chang poderá estar a encerrar nos tribunais estrangeiros, mas a história das dívidas ocultas em Moçambique está longe de terminar. Pelo contrário, um eventual retorno ao país pode abrir um novo capítulo — mais próximo, mais sensível e politicamente incómodo.
A grande questão permanece no ar:
haverá consequências reais dentro de Moçambique ou o caso será absorvido pelo silêncio institucional?
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