A tensão entre Washington e Caracas voltou ao centro do palco internacional. Para Nicolás Maduro, não há dúvidas: toda a ofensiva norte-americana — das sanções às apreensões de navios — tem um único objetivo, tão antigo quanto estratégico: controlar o petróleo venezuelano, as maiores reservas comprovadas do mundo.
Mas será realmente isso que Donald Trump busca? Ou o confronto é mais complexo do que a narrativa simplificada que o regime venezuelano insiste em repetir?
Nos últimos dias, as autoridades norte-americanas apreenderam um navio-tanque que transportava petróleo venezuelano em violação às sanções. A operação ocorreu depois de uma série de interceptações envolvendo embarcações que, segundo Washington, estariam ligadas ao tráfico de drogas. O próprio Trump intensificou o discurso, acusando Maduro de enviar criminosos para os Estados Unidos e pedindo a renúncia imediata do líder venezuelano.
A pergunta gira sempre em torno do mesmo tema: é o petróleo o prêmio final que os EUA procuram?
A resposta, dizem especialistas, é muito menos linear do que parece.
As maiores reservas do mundo… mas um setor em ruínas

Ninguém questiona a riqueza guardada no subsolo venezuelano: cerca de 303 mil milhões de barris de petróleo — as maiores reservas comprovadas do planeta.
O problema é que quase nada disso hoje chega ao mercado.
A produção colapsou depois de anos de má gestão, corrupção e interferência política. A PDVSA, antes um gigante respeitado, perdeu técnicos experientes, sofreu com falta de investimentos e acabou isolada pelas sanções impostas desde 2015, ainda no governo Obama.
Hoje, a Venezuela produz cerca de 860 mil barris por dia — um terço do que produzia há dez anos e menos de 1% do consumo mundial.
A infraestrutura está degradada, máquinas se perderam, oleodutos apodreceram e refinarias operam muito abaixo da capacidade.
Em outras palavras: não basta desejar o petróleo da Venezuela; seria preciso reconstruir todo o setor, quase do zero.
Trump quer o petróleo? A resposta oficial é: não. A resposta prática é: talvez.
Nos EUA, não faltam vozes políticas e empresariais defendendo que empresas americanas reentrem agressivamente na Venezuela. A congressista María Elvira Salazar chegou a afirmar que o país seria “um prato cheio” para petrolíferas dos EUA, capazes de restaurar uma cadeia produtiva que a PDVSA já não consegue sustentar.
Trump, conhecido pelo slogan “perfure, meu bem, perfure”, certamente não é um inimigo da expansão petrolífera.
No entanto, a Casa Branca insiste: o foco é combater o narcotráfico e pressionar Maduro, considerado ilegítimo por Washington.
Segundo especialistas como Clayton Siegle, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, não há provas concretas de que o petróleo seja o fator central da estratégia dos EUA. Para ele, a retórica anti-Maduro e a questão das drogas explicam mais da política americana do que qualquer ambição petrolífera imediata.
Mas há interesses, sim — e eles são reais
Embora o discurso oficial rejeite motivações petrolíferas, o sector energético dos EUA observa atentamente.
A Chevron — única petrolífera americana ainda ativa na Venezuela — produz cerca de um quinto do petróleo venezuelano e seria uma das maiores beneficiadas caso as sanções fossem flexibilizadas. As refinarias da Costa do Golfo, por sua vez, têm preferência pelo petróleo pesado venezuelano, mais barato e mais lucrativo de processar.
Ou seja: o interesse existe, mas não necessariamente como parte de uma estratégia agressiva de conquista, e sim como oportunidade de mercado caso o clima político permita.
O grande obstáculo: reconstruir a indústria venezuelana custaria uma fortuna
Mesmo que Maduro caísse amanhã e as sanções evaporassem, ainda assim o caminho seria longo.
Analistas estimam que pequenas melhorias de gestão poderiam aumentar a produção para 2 milhões de barris por dia em dois anos.
Mas para recuperar níveis realmente significativos seriam necessários bilhões de dólares e uma década de obras.
E surgem dúvidas fundamentais:
- Vale a pena investir tanto num setor que enfrenta declínio global gradual?
- Quem arriscaria bilhões num país ainda instável, com a PDVSA quebrada e sem garantia de segurança jurídica?
- Até que ponto a OPEP aceitaria uma Venezuela rejuvenescida produzindo agressivamente?
Como diz David Oxley, da Capital Economics, “quem entrar nesse mercado terá de se perguntar seriamente se o retorno compensa o risco”.
Conclusão: Maduro simplifica, os EUA negam — e o petróleo está no meio, mas não no centro
A narrativa de Maduro é conveniente: culpar os EUA por desejarem o petróleo serve para unir sua base interna e reforçar o discurso anti-imperialista.
Do outro lado, os EUA dizem estar focados no narcotráfico e na pressão política — e especialistas confirmam que não há evidências de um plano direto para confiscar as riquezas do país.
Mas entre discursos oficiais e realidades energéticas, a verdade está num terreno cinzento:
O petróleo não é o objetivo imediato dos EUA — mas é, sem dúvida, um ativo estratégico que todos sabem que vale muito.
Se o cenário político mudar, o interesse empresarial americano será um dos primeiros a ressurgir.
Até lá, a Venezuela continua rica no papel e pobre na prática — aprisionada pelas próprias decisões, pelo declínio da sua infraestrutura e por uma geopolítica que transforma suas reservas em símbolo de poder, não em prosperidade.
a bbc tambem publicou a materia : https://www.bbc.com/news/articles/cy95pr790pro
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