A catástrofe de cheias que atingiu grandes áreas do sul e centro de Moçambique chegou a um ponto crítico, com dados oficiais e internacionais apontando para centenas de milhares de pessoas afetadas, colapso de infraestruturas e um crescimento rápido e preocupante da crise humanitária. Em resposta ao agravamento da situação, o conselheiro Venâncio Mondlane pediu a convocação extraordinária do Conselho de Estado para debater a crise e avaliar a necessidade de declarar estado de emergência nacional.
Mondlane dirigiu uma carta ao Secretário-Geral do Conselho de Estado, solicitando a intervenção direta do Presidente da República para coordenar uma resposta de mais alto nível às enchentes que já ceifaram dezenas de vidas e deixaram milhares desabrigados. O pedido fundamenta-se na magnitude dos impactos sociais, económicos e humanitários derivados das intensas chuvas e transbordos de rios que desde dezembro de 2025 assolam o país.
Dados e Impactos da Crise
Dados preliminares das autoridades nacionais e organizações internacionais mostram que:
- A chuva intensa e persistente inundou vastas regiões do sul e centro de Moçambique, incluindo as províncias de Maputo, Gaza, Sofala, Inhambane e Manica, com estradas e ligações essenciais interrompidas.
- Mais de 700 mil pessoas foram diretamente afetadas pelas inundações, com milhares deslocados para centros de acomodação temporários e comunidades inteiras isoladas.
- O impacto na agricultura é severo: mais de 180.000 hectares de terras agrícolas inundadas e perdas significativas de gado foram relatadas, ameaçando a segurança alimentar local.
- O número total de mortos devido às cheias continua a subir, com dados variando conforme as fontes, mas todos apontando para uma tragédia em grande escala com dezenas de vidas perdidas até ao momento.
Organizações como o Programa Mundial do Alimentação (PMA) e a UNICEF intensificaram a assistência, alertando para riscos de fome, doença e deterioração das condições de vida especialmente entre crianças e famílias deslocadas. A UNICEF estima que até 800 mil pessoas podem estar afetadas nas próximas semanas à medida que a crise evolui.
Pressões Políticas e Institucionais
O pedido de Mondlane para a convocação do Conselho de Estado insere-se num contexto de críticas à resposta governamental até agora, com líderes políticos e organizações da sociedade civil pedindo maior coordenação e transparência na mobilização de recursos e ajuda humanitária. Ele argumenta que a situação exige uma resposta multissetorial e estratégica, não apenas ações táticas de emergência.
Além disso, o apelo de Mondlane inclui a avaliação da possibilidade de declarar oficialmente estado de emergência em áreas mais afetadas, um instrumento constitucional que pode desbloquear mecanismos legais e orçamentais adicionais para enfrentar a crise.
Repercussões Regionais e Apoio Internacional
A dimensão da catástrofe ultrapassou fronteiras: a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) mobilizou equipas de resposta emergencial, enquanto agências das Nações Unidas aumentaram os apelos por fundos e assistência combinada para atender às necessidades crescentes.
Líderes internacionais também se pronunciaram. A Secretaria-Geral da Commonwealth emitiu declarações de solidariedade e reforçou a necessidade de esforços regionais coordenados face ao desastre climático que está a causar sofrimento em larga escala.
Desafios à Frente
Os efeitos das cheias continuam a agravar a crise humanitária em Moçambique: o atraso no início do ano escolar, prejuízos no setor de saúde e desabastecimento de serviços básicos já são realidade em muitas comunidades. Com estradas cortadas e populações isoladas, a logística de ajuda torna-se cada vez mais complexa.
À medida que a resposta nacional e internacional se intensifica, cresce também a pressão sobre o governo para demonstrar liderança eficaz e garantir que os recursos mobilizados cheguem às vítimas com rapidez e transparência — um desafio central que o pedido de convocação do Conselho de Estado procura enfrentar. (vozafricano)