A 68.ª Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), realizada este domingo em Abuja, Nigéria, transformou-se num verdadeiro teste à credibilidade e à coerência da organização regional. Em cima da mesa esteve a crise pós-eleitoral na Guiné-Bissau, agravada pelos acontecimentos de 26 de novembro, que voltaram a mergulhar o país num ciclo de instabilidade política e militar.

Mais do que um simples dossiê entre vários temas da agenda, a situação guineense tornou-se simbólica: representa o confronto direto entre os princípios que a CEDEAO proclama — defesa da democracia, da ordem constitucional e do Estado de Direito — e a sua capacidade real de os fazer respeitar. A expectativa popular era grande, mas cresce também o ceticismo quanto à eficácia das decisões que possam emergir de Abuja.
Analistas e vozes críticas, como a do jurista guineense Néxus Faria, defendem que a organização corre o risco de repetir erros do passado. Para ele, a CEDEAO enfrenta profundas fragilidades internas, marcadas por golpes de Estado em vários países membros, sanções seletivas e respostas desiguais a crises semelhantes. “A organização arrisca perder autoridade moral se continuar a tratar crises democráticas com critérios políticos e não com base em princípios claros”, alerta.
Neste contexto, a Guiné-Bissau surge como mais um capítulo de uma história recorrente: eleições contestadas, instituições fragilizadas e interferência militar no processo político. A insistência em soluções negociadas à porta fechada, sem exigir transparência total dos processos eleitorais, tem sido apontada como um dos fatores que perpetuam a instabilidade crónica no país.
A posição de que “o futuro da Guiné-Bissau será decidido pelos próprios guineenses” ganha força não como rejeição da mediação regional, mas como crítica ao modelo atual de intervenção. Para muitos setores da sociedade civil, a CEDEAO tem falhado ao priorizar acordos políticos de curto prazo em detrimento da restauração plena da legalidade constitucional e da vontade popular.

Greves, manifestações e atos de desobediência cívica começam a ganhar expressão como sinais claros de um esgotamento social. A população demonstra crescente intolerância face a processos eleitorais sem resultados transparentes e a governos cuja legitimidade é amplamente questionada. Esta pressão interna poderá revelar-se mais determinante do que qualquer resolução adotada em Abuja.
A crise guineense obriga, assim, a CEDEAO a olhar para si própria. Ou reafirma de forma inequívoca o seu compromisso com a democracia, assumindo decisões firmes e coerentes, ou arrisca transformar-se numa organização limitada à gestão de crises, sem capacidade de prevenir a erosão constitucional nos seus Estados-membros.
Mais do que declarações finais ou comunicados diplomáticos, o que está em jogo é a confiança dos povos da África Ocidental numa organização criada para garantir estabilidade, paz e progresso. A Guiné-Bissau pode não ser apenas mais um caso na agenda da CEDEAO — pode ser o espelho que revela o futuro da própria organização.
Leia também esta notícia: Leia a Notícia: